E ainda: Dois artigos inéditos do Guesher: A Ponte Progressista!
O Meretz Brasil participou das eleições para o Congresso Sionista Mundial com uma campanha baseada em valores: justiça social, democracia, pluralismo e sionismo progressista.
E desta forma fomos o partidos mais votado, com 680 votos, e conquistamos 2 mandatos para o 39º Congresso Sionista Mundial!
Muito obrigado e obrigada!
Agora que as urnas se fecharam, queremos abrir espaço para algo também muito importante: a sua voz.
Lançamos uma pesquisa aberta para escutar você, e para planejar juntos os próximos passos do Meretz Brasil.
É muito rápido! E pode fazer toda a diferença!
Ou aqui: https://bit.ly/nossomeretzbrasil
Agradecemos desde já por caminhar conosco na construção de um sionismo mais ético, inclusivo e transformador.
Meretz Brasil – Sionismo progressista em ação.
Dor e esperança: música em um mundo violento
Por: Oded Riftin
Em 2015, o ex-presidente de Israel, Rubi Rivlin, apresentou, em um discurso que ficou conhecido como “O Discurso das Tribos”, uma nova ordem que se formou e dividiu a sociedade israelense. A sociedade israelense, segundo Rivlin, não é mais uma sociedade com uma maioria unida em fraternidade e um senso de identidade comum, mas é dividida em várias sociedades pequenas: quatro tribos, que vivem vidas completamente separadas, sem nenhum grupo majoritário e nenhuma população dominante.
Enquanto podemos discordar sobre o número de tribos que realmente existem em Israel (eu acho que há muito mais que quatro) e questionar se a maioria israelense alguma vez foi realmente unida no passado, eu acredito que, quanto mais o tempo passa, mais o apelo de Rubi para encarar essa realidade e criar uma cooperação profunda entre essas identidades tão distintas se torna relevante. Porém, à sombra da realidade israelense atual, o sonho de uma sociedade com espaço para todos não poderia estar mais distante.
Desde que a coalizão atual, composta por ultraortodoxos, kahanistas e um Likud radicalizado, tomou posse em 2022, o governo israelense se desfez de qualquer responsividade e dever de representação do público liberal em Israel. Se você é um israelense que se importa com a separação dos Três Poderes, se você demanda uma investigação do governo sobre o maior fracasso da história do nosso jovem Estado (o massacre de 7 de outubro), se você não se conforma com a quantidade de cidadãos palestinos que estão sendo mortos na Faixa de Gaza, e se você demanda a volta dos reféns que estão apodrecendo nos túneis do Hamas faz mais de 600 DIAS! — os membros do governo não te veem mais como cidadão, mas como um anarquista e um traidor (palavras deles).
Não importa quantas dezenas de milhares de pessoas protestem nas ruas toda semana, quantos declarem em pesquisas que são a favor de terminar a guerra ou quantos até se recusem ao serviço militar — ninguém na liderança política está disposto a escutar.
Sentindo-se calados e humilhados, muitos da tribo liberal israelense, especialmente os mais velhos, recorrem à nostalgia para encontrar conforto e relembrar os valores societais que os guiam. Heróis culturais, especialmente musicais, têm um papel importante nessa tradição. Para muitos, até na violência e no caos atual, não há nada como uma música do Arik Einstein para fazê-los sentir que o sonho da paz continua vivo.
Enquanto as músicas do Arik, Yehudit Ravitz, Meir Ariel e outros abrem sorrisos nas caras de jovens também, com a continuação da guerra ficamos carentes de expressões culturais e artísticas atuais que não estejam desconectadas das nossas experiências dolorosas — e que até possam oferecer uma fonte de esperança. Assim, quase naturalmente, entre os cafés, bares e a frustração em Tel Aviv, a cena de músicos jovens independentes começou sua renovação.
Apesar de, em meio aos horrores do 7 de outubro, ser fácil esquecer o cancelamento de um festival de rock e música alternativa, a suspensão do InDnegev, que estava planejado para a semana seguinte ao massacre, gerou uma onda de choque que tem afetado e desacelerado a cena musical alternativa em Israel até hoje. O festival, que acontecia todo ano em Mitzpe Gvulot (no norte do deserto de Negev), era um espaço sagrado para os amantes de música atual e inovadora em Israel. Para muitas bandas no começo do caminho, tocar em seus palcos, que frequentemente hospedavam novos sons, era a maior aspiração e oportunidade.
Portanto, as imagens de tanques e armas do Tzahal usando as tendas do festival, transformando em uma base militar o espaço que até então providenciava um refúgio pacífico e criativo da loucura israelense, foram um tapa na cara. Isso forçou todos nós a entender que estamos em uma nova realidade, onde música, arte e cultura não são mais uma garantia. E, realmente, nos primeiros meses da guerra, lançamentos de álbuns foram cancelados e shows pararam de acontecer. Mas, com a volta gradual da música ao vivo às nossas vidas, artistas jovens começaram a expor tudo que estava entalado dentro deles e mostraram que têm muito a dizer ao mundo.
A Nunu, que ficou conhecida em 2021 por seu hiper-pop satírico, demorou alguns meses para voltar a lançar músicas novas depois do começo da guerra. Em uma entrevista com a “Kan”, ela contou que, em outubro de 2023, seu álbum já estava gravado e pronto para ser compartilhado com o público. Esse álbum, ela relata, foi escrito para uma realidade completamente diferente — era incompatível com o mundo pós-7 de outubro. Portanto, decidiram “lignoz” (palavra judaica que se refere ao arquivamento de textos sagrados que não podem ser jogados no lixo comum, e que hoje é usada por músicos para se referir a material que não pretendem expor ao mundo).
Só em março de 2025 a jovem artista finalmente lançou seu álbum, completamente diferente da música leve e divertida que aprendemos a esperar dela. O álbum “Ma chutz Mize” é cheio de humor cínico que olha diretamente nos olhos da existência contemporânea oferecida para jovens em Tel Aviv, com músicas sobre amor, sucesso e desespero.
Mas não é à toa que o sucesso do álbum fala diretamente sobre a guerra e a situação política no país, abordando sensações de impotência, raiva e angústia com uma deselegância realista. Com um forte beat e vocais processados, a música “Kapaim laGz’urim” (“Palmas pros doidos”), que no momento da escrita deste artigo foi ouvida mais de 130.000 vezes no Spotify (o que, para Israel, não é pouco), diz:
“É insuportável, mas suportamos,
é insuportável, mas nós sofremos.
Palmas pros doidos que não desistem e tentam.
Merda, não tem outra opção,
todos nós estamos no mesmo barco de merda.
Não são meus problemas, são do meu país.
Aaa merda, então são os meus problemas também.”
Enquanto eu sei que, para o leitor, a música pode soar completamente deprimente, para nós músicas como essa tornaram-se empoderadoras. A habilidade de se juntar, dançar e xingar a realidade transformou os shows da Nunu em eventos comemorativos e incrivelmente populares entre israelenses laicos, críticos e liberais. Na nossa realidade, shows se transformaram em espaços libertadores que permitem processar trauma e incerteza de maneira coletiva.
Tenho a grande sorte de ganhar esse espaço de cura e expressão não só como um fã apaixonado pela música ao vivo e membro da plateia, mas também como músico. Em março de 2023, a banda Raash Lavan foi formada pelos talentosos Yali (Yahel) Gazit, Omri Shlisel e Yam Goldstein, com o propósito de transformar a poesia escrita pelo Yali em um álbum inovador. Pouco depois, quando decidiram gravar, completaram a banda com os músicos Nadav Yogev, Omri Lev, Omri Kaplan e eu.
Nos meses seguintes, com muito propósito, amor e grandes aspirações, a primeira versão do álbum — um rascunho caprichado — foi concluída. Fizemos uma pausa, e a guerra começou pouco depois. Mas tudo realmente mudou no dia 4 de dezembro de 2023, quando o Yali, que escreveu quase todas as músicas e era uma força inseparável da criação da banda, foi morto na Faixa de Gaza por um RPG que atingiu se tanque.
Na shivá, com a família do Yali, entendemos que nada poderia ser mais significativo para nós — e para ele — do que continuar a produção do álbum. Ido, o irmão do Yali, assumiu nesse momento o papel de nosso agente, e saímos juntos para um novo caminho. Já faz mais de um ano que o nosso primeiro álbum saiu. Desde então, estamos criando músicas novas e temos feito shows constantes, sempre mantendo a visão e as letras do Yali como parte integral da banda.
Com o passar do tempo — para nós, e esperamos que também para o nosso público — nossos shows viraram eventos que reúnem pesar e felicidade, dor e esperança no mesmo espaço. Nenhuma música expressa isso melhor do que “Nefilati” (“Minha Queda”), uma música de término de relacionamento escrita pelo Yali, que hoje ganhou um significado completamente diferente.
A música começa com proclamações sombrias: “Essa é a minha queda, e hoje começa chorban” (termo usado para se referir à destruição do templo). Mas termina com o canto repetido e prolongado da frase “o amor ainda virá”, que é sempre entoado com paixão pela plateia. Esse momento sempre me preenche com a sensação de que meus colegas desejam um futuro melhor — e que nossa geração acredita que esse futuro sim, é possível.
Enquanto ainda não falamos de uma paz messiânica, onde há música ao vivo em Tel Aviv ou em qualquer outra cidade ou bairro liberal de Israel, as músicas de dor e esperança também estão presentes. Em torno da música, jovens se reúnem para encontrar um sentimento de pertencimento que não está centrado no nacionalismo, na religião ou no ódio ao inimigo, mas em um anseio por uma realidade melhor. Talvez ainda não tenhamos as palavras certas para expressar exatamente como esse futuro vai se manifestar, mas desejo que continuemos a criar mais espaços coletivos que celebrem a vida, o amor e a tolerância. Assim, podemos manter viva a esperança por um futuro menos violento.
Para acompanhar esse artigo, preparei um playlist curto de música Israelense independente/alternativa que saiu depois do 7 de outubro, incluindo as duas músicas referenciadas nesse texto. Estão mais que convidados a ouvi-la:




