Por Jill Jacobs é rabina, diretora executiva da T’ruah: The Rabbinic Call for Human Rights, e foi delegada da UPZ no 39º Congresso Sionista Mundial.
Pro-Israel? Pro-Palestina? Pare de amplificar as vozes mais extremas e desumanizadoras do seu próprio campo

Durante e depois de dois anos de guerra brutal entre Israel e o Hamas, muitos defensores pró-Israel e pró-Palestina insistiram na total justiça do “seu lado” e na pura maldade do outro. Ambos deveriam ouvir um alerta do Talmud sobre os perigos do pensamento de grupo levado
ao extremo.
Por Jill Jacobs
“Nuance é chato.”
Foi assim que respondeu um jornalista de um grande veículo quando perguntei por que sua publicação retratava a comunidade judaica como dividida entre os extremos da esquerda e da direita, mesmo quando pesquisa após pesquisa mostrava que a maioria dos judeus norte-americanos se sente profundamente conectada a Israel, horrorizada pelos ataques do Hamas em 7 de outubro e cada vez mais contrária à guerra conforme ela se prolongava.
Voltei a pensar nisso ao ler a recente coluna de Joshua Leifer, no Haaretz, questionando por que “a direita ultra militarista e a esquerda antissionista afogaram a maioria judaica norte-americana”.
É verdade que, nos últimos dois anos, as vozes mais altas e mais amplificadas foram justamente as mais extremas. À medida que a guerra brutal entre Israel e o Hamas se arrastou por quase dois anos, muitos militantes pró-Israel e pró-Palestina dobraram a aposta na crença absoluta na justiça de seu próprio campo — e na maldade total do outro.
De um lado, isso incluiu a desumanização de judeus israelenses e a justificativa, minimização ou até negação do ataque do Hamas em 7 de outubro.
Do outro, incluiu a desumanização de palestinos, a recusa em responsabilizar Israel por qualquer parte da morte e destruição em Gaza e a negação de relatos sobre fome no território.
Cada lado passou a circular suas próprias imagens trágicas — crianças israelenses mortas em 7 de outubro ou crianças palestinas mortas nos bombardeios subsequentes — enquanto tentava desacreditar ou relativizar as imagens do outro. Cada campo ignorou ou rebateu qualquer evidência que pudesse desafiar suas posições ou atribuir parte da responsabilidade ao seu próprio lado.

Enquanto isso, muitos ativistas fora da região reforçaram narrativas totalizantes que ignoravam a diversidade e as diferenças internas das sociedades e políticas israelense e palestina, afirmando que “todos” os israelenses ou “todos” os palestinos eram culpados e coniventes com as piores ações de qualquer indivíduo de seu grupo — ou que não existiam “inocentes” ou “civis” em nenhuma das populações.
Esses ativistas ignoraram realidades mais do que conhecidas por israelenses e palestinos: que o Hamas há muito comete atos de brutalidade e terror contra israelenses e palestinos, e que o atual governo israelense está mais interessado em realizar delírios de assentamento de extremistas messiânicos do que em proteger a vida de seus próprios cidadãos.
Um texto surpreendente do Talmud confronta essa tendência de aderir cegamente às ortodoxias do próprio campo, pressionar pela unanimidade interna e recusar até considerar informações contraditórias.
Segundo o Talmud, quando alguém é acusado de um crime grave, deve comparecer diante de um tribunal de 23 juízes, que interrogam testemunhas, analisam provas e finalmente dão um veredicto. Normalmente, uma maioria simples de dois votos a mais é suficiente para condenar. Por exemplo: se 13 votam por condenar e 10 por absolver, o réu é considerado culpado. Porém, “se todos os juízes concordarem em condenar, então absolvem.” (Sanhedrin 17a).
Como pode um tribunal que decidiu por unanimidade pela condenação ser obrigado a absolver?
A jurisprudência talmúdica vai a grandes extremos para evitar que uma pessoa inocente seja condenada — mesmo ao ponto de permitir que culpados eventualmente sejam absolvidos. O julgamento começa com argumentos de defesa. Os juízes são incentivados a buscar ativamente qualquer testemunho que favoreça a absolvição. No momento da deliberação, os juízes menos experientes falam primeiro, para não serem influenciados pelos mais renomados.
Crucialmente, após um voto de condenação, o julgamento é suspenso por uma noite, para que os juízes durmam sobre a decisão — na esperança de que novas evidências possam surgir ou que alguém que votou por condenar possa reconsiderar após refletir sobre o argumento de quem votou por absolver (Mishná Sanhedrin 4:1-2).
Mas quando todos os juízes votam por condenar, não existe nenhuma voz divergente. Não há chance de alguém acordar de manhã percebendo que um colega tinha razão. Diante da impossibilidade de reconsideração, o tribunal opta por deixar o réu ir embora.
Ou seja: o sistema de justiça talmúdico considera um veredicto unânime como suspeito e ilegítimo justamente por sua unanimidade.
O Talmud exige que perguntemos onde podemos encontrar mérito no outro lado e se nossa compreensão da verdade pode estar equivocada — mesmo que apenas em parte — porque a certeza absoluta pode ter consequências graves tanto para o acusado quanto para os juízes. Ele nos pede para rejeitar o conforto da unanimidade interna e buscar vozes divergentes, não como uma formalidade processual, mas como necessidade moral.
Essa insistência talmúdica em ouvir dissensos e procurar o mérito do acusado não é um convite a ignorar comportamentos problemáticos ou criminosos. Ela reconhece o quanto é fácil nos enredarmos no pensamento de grupo e nas ortodoxias do nosso próprio campo político, a ponto de perdermos a clareza.
Os rabinos do Talmud criaram salvaguardas no sistema justamente porque sabiam que até juízes instruídos e bem-intencionados poderiam silenciar divergências ou sentir pressão social para concordar uns com os outros. Entenderam que unanimidade não é prova de estar certo — é alerta de que evidências contrárias foram ignoradas.
Esse processo de buscar o mérito do acusado e insistir no dissenso contrasta profundamente com nossa tendência contemporânea de nos dividir em campos rígidos, suprimir dúvidas internas e negar qualquer mérito às reivindicações do outro.
Muitos parecem acreditar que solidariedade aos palestinos exige defender o Hamas ou o Hezbollah, ignorar ou justificar assassinatos de israelenses e negar a conexão histórica judaica com a terra ou o direito dos judeus viverem nela.
Ao longo da guerra, houve chamados à morte de “sionistas”, exigências de que judeus israelenses “voltem para a Europa” (mesmo quando suas famílias jamais viveram lá), retirada de cartazes de reféns e até zombaria de reféns libertados. Quando agressores mataram três pessoas em eventos comunitários judaicos em Washington, D.C., e Boulder, alguns minimizaram os assassinatos ou os classificaram como “apenas políticos”, apesar do alvo ser precisamente encontros judaicos.
E, do outro lado, muitos acreditam que solidariedade com israelenses exige tratar todos os palestinos como membros do Hamas que “merecem morrer”, contestar relatos de fome dizendo que somente crianças com condições prévias são afetadas, e comentar “fake” em fotos de destruição em massa. Muitos ignoraram ou relativizaram indícios de crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza e de ataques violentos de colonos na Cisjordânia cometidos com impunidade.

No debate sobre Israel e Palestina, isso significa que cada lado precisa começar reconhecendo a humanidade do outro, validando o trauma vivido, a necessidade de segurança, e admitindo que tanto judeus quanto palestinos têm vínculos históricos com a terra e não irão desaparecer. E significa também admitir os erros do próprio lado: solidariedade aos palestinos não exige defender o Hamas, e solidariedade aos israelenses não exige apoiar o governo israelense.
Existem, claro, organizações que levam essa voz à comunidade judaica norte-americana — incluindo as da Progressive Israel Network, da qual a T’ruah, que dirijo, faz parte. Mas, como observa Leifer, essas vozes são frequentemente abafadas pelo enorme investimento financeiro e pela atenção midiática dedicada a reforçar as narrativas binárias.
Vivemos dois anos de sofrimento imenso para israelenses e palestinos. Há uma necessidade urgente de ação concreta — regional e internacional — para reconstruir e negociar uma solução duradoura que ponha fim ao derramamento de sangue.
Mas muitos debates sobre Israel e Palestina — em fóruns internacionais, universidades, comunidades religiosas e até famílias — são guiados por pensamentos binários que não deixam espaço para complexidade, divergências e humanidade.

A maioria dos judeus norte-americanos entende que essas dicotomias, tão destacadas pela mídia, não fazem justiça nem aos israelenses nem aos palestinos.
E, mesmo assim, as vozes mais altas e extremas costumam dominar.
O Talmud nos oferece um alerta oportuno sobre o perigo dessa tendência.
Por Rabina Jill Jacobs, que é diretora executiva da T’ruah: The Rabbinic Call for Human Rights, organização que mobiliza 1.800 rabinos, rabinas e cantores, além de dezenas de milhares de judeus norte-americanos, na defesa dos direitos humanos em Israel e na América do Norte, e foi delegada da UPZ no 39º Congresso Sionista Mundial.
Artigo traduzido e adaptado pelo Meretz Brasil.
Original publicado no portal Haaretz.com, em 25/11/2025.
(https://www.haaretz.com/opinion/2025-11-25/ty-article-opinion/.premium/pro-israel-pro-palestine-stop-amplifying-your-camps-most-extreme-dehumanizing-voices/0000019a-ba5c-dcd7-a3be-ba7d8dfd0000)
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