O Ponto É – o novo podcast do Meretz Brasil

Temporada 1 – Atravessando os caminhos para a paz | Episódio 1 – O ABC dos Acordos de Paz de Israel, com Revital Poleg

“O Ponto É…”, é o novo podcast do Meretz Brasil que busca construir pontes entre histórias, gerações e perspectivas para compreender os caminhos do sionismo progressista, dos judaísmos e do mundo.
A cada temporada, mergulharemos em marcos históricos, escutaremos especialistas e protagonistas, e debateremos como passado, o presente e o futuro se entrelaçam nas lutas por justiça, coexistência e paz.

Temporada 1: Atravessando os Caminhos para a Paz
Nesta primeira série documental, com curadoria de Revital Poleg, “O Ponto É…” convida o público a mergulhar na história recente do Oriente Médio a partir de uma pergunta central:
“Como Israel construiu (ou tentou construir) a paz em diferentes momentos históricos, e por que certos acordos prosperaram enquanto outros fracassaram? E como impactam no presente?”

Ao longo de onze episódios, percorremos a linha do tempo dos principais acordos e marcos políticos — de Camp David aos Acordos de Oslo, do Tratado com a Jordânia aos Acordos de Abraão, até chegar ao 7 de outubro de 2023. A cada episódio, especialistas e convidados nos ajudarão a entender não apenas as negociações e tratados assinados, mas também o contexto social, regional e internacional que os cercou.

Mais do que revisitar fatos, esta série busca revelar as esperanças, contradições e dilemas que acompanharam cada tentativa de paz. Ao navegar pelo passado, abrimos espaço para refletir sobre os desafios do presente e as possibilidades de futuro.


De Kadesh a Vestfália: de onde vêm os acordos de paz?

Desde que existem guerras, existe uma pergunta que volta sempre: como parar a matança sem que um lado seja totalmente destruído? Muito antes de “ONU”, “direito internacional” ou “tratados de paz”, reinos e cidades-Estado já tentavam transformar força bruta em palavra escrita — às vezes por medo, às vezes por exaustão, às vezes por puro cálculo político.

Por volta de 1259 a.C., Egito e Império Hitita assinam o chamado Tratado de Kadesh. Depois da famosa batalha em torno da cidade de Kadesh, nenhum dos dois lados saiu com vitória clara — e a solução foi um acordo de não agressão e aliança defensiva. O texto foi gravado em tabuletas de argila e também em paredes de templos egípcios. Curiosidade: uma cópia moderna desse tratado está hoje exposta na sede da ONU, como símbolo de uma das primeiras tentativas humanas de “codificar” a paz.

Escavações na antiga cidade de Ebla (na região da Síria atual), datadas de cerca de 2400 a.C., revelaram um arquivo de tabuletas com menção a um pacto com a cidade de Abarsal. Não temos o texto completo, mas os registros indicam que já havia ali uma espécie de tratado entre cidades rivais. Isso mostra que, mesmo em contextos muito antigos, a guerra não era a única ferramenta: já se negociava, se jurava diante dos deuses, se selavam promessas para evitar conflitos constantes.

Esses primeiros acordos eram, muitas vezes, trégua armada, não reconciliação. O ódio, a disputa territorial e o desejo de vingança continuavam ali, só que momentaneamente contidos. Em alguns casos, o tratado durava alguns anos; em outros, mal sobrevivia à morte do governante que o assinou. A lógica era: “paramos de lutar por enquanto”. Essa diferença entre parar de atirar e transformar a relação acompanha toda a história dos acordos — até hoje.

Pulando para o século XVII, a Paz de Vestfália encerra a devastadora Guerra dos Trinta Anos na Europa Central, um conflito que misturava religião, poder e território. As negociações aconteceram simultaneamente em duas cidades, Münster e Osnabrück, com dezenas de delegações. O resultado não foi só “fim da guerra”, mas um novo princípio: cada Estado passa a ser reconhecido como tendo autoridade sobre seu território, sem interferência externa. Nasce, ali, a ideia moderna de soberania.

Vestfália consolida um arranjo que ainda hoje estrutura a política mundial: um mapa de Estados soberanos, formalmente “iguais”, que fazem tratados entre si. A partir daí, vai ficando mais comum resolver grandes guerras com conferências de paz (como Viena em 1815) e não apenas com imposição unilateral. Isso não acaba com as guerras, longe disso, mas cria uma gramática: fronteiras, diplomatas, congressos internacionais, compromissos escritos.

Entre Kadesh e Vestfália, e depois delas, uma série de acordos marcam a evolução dessa prática. A Paz de Nicias (421 a.C.), que suspende por alguns anos a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, o Tratado de Paris (1783), que reconhece a independência dos EUA e o Congresso de Viena (1815), que redesenha a Europa após as guerras napoleônicas e estabelece quase um século sem guerra geral no continente.
Cada um deles nasce de um cenário parecido: cansaço, medo do colapso e necessidade de reordenar o tabuleiro.

O fio comum entre esses acordos é quase sempre o mesmo, sociedades devastadas, elites com medo de perder tudo, percepção de que continuar na guerra custa mais do que sentar à mesa.

Às vezes, o resultado é uma paz longa; em outras, é um tratado mal desenhado que prepara o terreno para a próxima guerra. Mas, em todos os casos, fica uma lição acumulada sobre o que funciona, o que não funciona e o que nunca mais deveria ser repetido.

Essa viagem pelo tempo não é só curiosidade histórica. No podcast “O Ponto é…”, quando a gente falar de Camp David, Oslo, Acordos de Abraão e fracassos recentes, vamos estar dialogando com essa tradição mais longa: a de usar escrita, diplomacia e negociação como tentativa de domar a violência — com todos os limites e contradições que isso carrega.

O Ponto é: antes de discutir qualquer acordo de paz específico, a gente precisa lembrar que a humanidade vem há milênios tentando interromper guerras com palavras, e que, apesar de todos os fracassos, essa insistência em negociar ainda é uma das poucas coisas que nos separa da barbárie permanente.


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