Evento “Sionismo em Disputa” – 11 de junho, 19h, em São Paulo | Registre-se no Mifal HaChaverut –

E mais! Confira o artigo inédito do Guesher: “O Programa de Jerusalém: Nossa leitura”, escrito por Marcos Gandelsman.

SIONISMO EM DISPUTA
Quarta-feira | 11 de junho | 19h | Sala Crisantempo – Rua Fidalga, 521 – Vila Madalena, São Paulo – SP

O Meretz Brasil convida você para um evento presencial que propõe uma reflexão profunda sobre os sentidos e disputas em torno do sionismo na atualidade. Vamos abrir a noite com a exibição do curta documental “Na Nossa Pele”, seguido de uma roda de conversa com quatro nomes que pensam o judaísmo e a política a partir de perspectivas diversas, críticas e comprometidas com os direitos humanos.

Convidados:

Anelise Froes
Doutora em Antropologia Social pela UFRGS, Coordenadora do Laboratório Novas Formas de Antissemitismo no IBI no Campus (Instituto Brasil-Israel) e Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Diálogos da Diáspora – Racismo e Antissemitismo”, do Labô – FUNDASP/PUC-SP. Realizou estágio pós-doutoral no Labô entre 2023 e 2024, com pesquisa sobre racismo, antissemitismo e xenofobia no Brasil Contemporâneo.

Daniel Douek
Cientista social e mestre em Letras pela USP, onde atualmente cursa o doutorado em Estudos Literários e Culturais. Pesquisa cultura judaica, identidade e relações entre Brasil e Israel.

Guilherme Casarões
Cientista político, doutor pela USP e professor da FGV. Especialista em política externa, nacionalismo religioso e relações Brasil-Oriente Médio. Coordena o Observatório da Extrema Direita.

Gabriel Richards
Historiador pela UFRJ, professor em escola judaica no Rio de Janeiro e pesquisador das relações entre identidade, racialidade e judaísmo. É idealizador do curta “Na Nossa Pele”, que será exibido no evento.

Márcia Sussermann
Farmacêutica e ativista na comunidade judaica, com trajetória no Noam e na Associação Cultural Mordechai Anilevitch. Integra o Meretz Brasil desde 2022, pautando sua atuação por uma visão judaico-sionista plural, democrática, inclusiva e comprometida com a justiça social.

Entrada Franca
Contato para informações: +55 21 97420-4848


FALTAM POUCOS DIAS!
O prazo para se registrar nas eleições do Congresso Sionista Mundial vai até 13 de junho.

É por meio do Congresso que definimos os rumos do sionismo global e decidimos sobre políticas, prioridades e financiamento de projetos em Israel e na diáspora.
Seu registro fortalece um judaísmo democrático, plural e progressista.

Registre-se aqui: https://br.eventmagix.com/

Contamos com a sua presença e participação ativa!


“O Programa de Jerusalém: Nossa leitura”
Por Marcos Gandelsman

Para muitos, chamar algo de programa político pode parecer um argumento de cartilha: desde esta leitura, cada tópico é um objetivo prático, que precisa ser realizado de acordo com o que o texto prescreve.

Não é assim que a Organização Sionista Mundial funciona. Desde seu estabelecimento, o conceito de programa político, tochnit, serviu para a propaganda interna, ideológica e identitária, enquanto plataforma que unia organizações diferentes e em disputa, mas que já atuavam intencionalmente para a criação de um estado judaico. Cada partido sionista representa uma perspectiva, face as transformações sociais atravessadas na modernidade, sobre a importância e o objetivo de autodeterminação judaica. A título de exemplo, são os debates da década de 50 que legam a noção de Movimento de Libertação Nacional para o debate de esquerda sobre o Sionismo, e para o uso deste conceito no texto atual do programa, ecoando a luta anticolonial e anti-imperialista, como avançada desde a Conferência de Bandung, em 1955. O Programa de Jerusalém surge em 1951, no Vigésimo Terceiro Congresso Sionista, o primeiro realizado em Israel. Respondia a uma questão fundamental: estabelecido Israel e findada a guerra, qual a função do movimento sionista?

Para o Sionismo de Esquerda, mesmo com o estabelecimento do estado de Israel, e seu reconhecimento internacional em 1948, ainda havia sentido para a continuidade do Movimento Sionista, porque Israel não havia alcançado a condição de uma sociedade verdadeiramente democrática, justa e segura. Infelizmente ainda não alcançou. Seguimos em disputa acerca do que quer dizer realizar o Programa de Jerusalém, desde sua apresentação em 1951, e suas revisões em 1968, 2004 e 2024. Acreditamos, enquanto Sionistas de Esquerda, que a sobrevivência do caráter emancipatório e libertário de um movimento sionista de massas depende de nossa disputa atual do movimento e de seu programa, e foi por isso que o Meretz atuou em conjunto com outros partidos para que as suas revisões recentes apontassem, diferente da revisão de 1968, para políticas progressistas. O texto não é perfeito, é registro de nossa luta continuada, e da disputa real que o movimento sionista enfrenta a cerca de seu propósito político. Foram décadas de esforço acompanhadas pela atuação de outros partidos progressistas, para orientar políticas cada vez mais fundamentais à continuidade de um judaísmo plural e de uma Israel democrática, orientada para a realização efetiva da paz na região, e da autodeterminação palestina.

O que segue é um pequeno comentário, com base em cada ponto do atual Programa de Jerusalém, ratificado e revisado pela última vez no Congresso de 2024. Vale salientar que, embora na linguagem do programa em 1951 cada ponto fosse apresentado como uma tarefa, o texto desde 1968 define cada tópico enquanto um fundamento, Yesod. A tradução fazemos diretamente do documento em Hebraico[1]:

1: A Unidade do Povo Judeu, seu vínculo com sua histórica terra, Eretz Israel, e a centralidade do Estado de Israel e de Jerusalém, sua capital, na vida do povo.

Perdemos, desde nossa perspectiva, quando o documento de 2004 faz a adição acerca da centralidade de Jerusalém, mantendo e reforçando o caráter teológico do texto de 1968, promovido com o fortalecimento do sionismo religioso. Para nós, priorizamos estrategicamente a disputa de outros fundamentos do programa. Reconhecemos que este texto é usado por sionistas de direita para argumentar que a ocupação ilegal de territórios palestinos em Jerusalém oriental, por exemplo, é legítima realização sionista, e seguimos fazendo a disputa política para que cessem os assentamentos ilegais, e para que nenhum centavo do movimento sionista sirva a estes fins.

2: Aliá para Israel de todos os países, e a bem-sucedida integração de todos os imigrantes à sociedade israelense.

O projeto de Aliá em massas, e de fim da diáspora judia profetizada por alguns nos anos 50, se transforma já em 1968 na concepção da Aliá enquanto direito judaico, não dever. O texto deste fundamento, historicamente, serviu também à nossa luta pelo reconhecimento de minorias étnicas judaicas por parte do movimento sionista, afirmando o respeito às diferentes tradições e diásporas. A proposta sionista é de uma unicidade sem homogeneidade, uma identidade judaica por princípio pluralista, que promove políticas inclusivas e de apoio aos vulneráveis, e que ambiciona uma genuína igualdade, baseada em um estado de justiça social.

3: Fortalecer Israel enquanto um país Judeu-Sionista e democrático, e em sua conformação como uma sociedade de caráter moral-espiritual distinto – fundado no respeito mútuo pela diversidade no povo Judeu; e na visão dos profetas, enquanto sociedade exemplar, que luta pela paz e contribui para a reparação do mundo (Tikun Olam).

Este, em nossa concepção, é um dos fundamentos centrais do programa, em que o sentido político de um estado sionista é explicitado. Nossa luta seguiu ao longo das décadas dois propósitos, que resultaram nos argumentos em defesa do pluralismo judaico e da justiça social, do Tikun Olam, como bases para a definição de políticas sionistas. Através destes dois argumentos pautamos e avançamos no reconhecimento e inclusão LGBT, em políticas de representatividade feminina, em políticas de responsabilidade socioambiental, com atividades voltadas para a sociedade árabe cidadã de Israel e iniciativas binacionais que promovem a convivência e integração social em Israel entre judeus e palestinos.

4: Garantir o futuro e a singularidade do povo Judeu, através de avançar/promover a educação judaica, hebraica e sionista, nutrir valores culturais e espirituais judaicos, e transmitir o hebraico como língua nacional.

Para a atividade na diáspora que o Meretz Brasil desenvolve, este fundamento é de direta importância, a partir do qual disputamos a distribuição de recursos para promover as tnuot, e uma educação judaica inclusiva, engajada com a paz no Oriente Médio, e socioambientalmente sustentável.

5: Cultivar a responsabilidade mútua judaica, defender os direitos de Judeus enquanto indivíduos e enquanto nação, representar os interesses nacionais sionistas do povo Judeu e combater todas as manifestações de antissemitismo.

O Meretz Brasil contribui por seus canais de mídia, e por suas atividades ao longo dos anos, com a luta ao antissemitismo em nosso país, com o combate à desinformação exacerbada pelas redes sociais, e em defesa de uma visão plural sobre palestinos, israelenses e sionistas, avançando, desde nossa perspectiva, o compromisso com o sionismo progressista, e sua articulação na Organização Sionista Mundial, em defesa das pautas históricas do sionismo de esquerda, que se reconhece mutuamente responsável pelo mundo e por toda a humanidade.

Combater antissemitismo, um problema crescente em nossas sociedades, não é silenciar a crítica ao governo e aos crimes perpetrados em uma guerra há tempos injustificável. Combatemos antissemitismo nos solidarizando, enquanto judeus, com todas as outras identidades menorizadas, conscientes de que é o respeito aos direitos humanos e à democracia que permitirão superarmos o antissemitismo e as demais formas de preconceito. Nossa crítica ao governo e às instituições nacionais do estado de Israel e do Movimento Sionista se inspiram na mesma tradição profética, no princípio judaico de perseguir a justiça. Por isso seguimos cobrando o fim imediato da guerra, o retorno dos reféns, e o início do longo processo de reconstrução israelense e palestina.

6: Assentar a terra como expressão de realização (hagshamá) sionista da teoria para a prática.

O problema principal deste fundamento é a imprecisão no uso que faz do termo “Aretz”. A ambiguidade provoca o debate e a revisão das políticas para justificar, desde o sionismo de direita, a importância de colonizar a Cisjordânia, e desde o sionismo de esquerda a importância de fortalecer os Kibutzim e as regiões periféricas de Israel, dentro da Linha Verde. Depois de Sete de Outubro de 2023, religiosos de direita passaram a incluir Gaza em seus projetos de colonização. De nossa parte, exigimos a abertura de um fundo para a reconstrução e completa reabilitação dos Kibutzim e demais regiões destruídas durante o ataque e a subsequente guerra. É verdade que devemos lutar institucionalmente para que este texto seja claro em sua orientação. Reafirmamos que lutamos contra o uso de verbas sionistas para assentamentos ilegais, e junto com outros partidos progressistas, seguimos evitando a radicalização à direita destas políticas. Quanto mais fortes formos, mais avançada poderá ser nossa luta.

7: Encorajar o alistamento e serviço nas Forças de Defesa de Israel e outras forças de segurança, fortalecendo-as enquanto forças de proteção do povo judeu assentado em Tzion, e também encorajar o serviço nacional (sheirut leumi) para aqueles isentos por lei do serviço militar.

O serviço militar segue sendo elemento funcional constitutivo tanto do caráter histórico do movimento sionista, quanto da realidade geopolítica do Oriente Médio nos séculos XX e XXI. A proteção do povo judeu, contudo, não depende de uma vigilância militar constante. Depende da realização prática da paz com todos os países da região, e do fim imediato das hostilidades contra o povo palestino, orientado por um processo acordado em direção à paz duradoura e à autodeterminação das duas nações. O exército de Israel falhou em sua missão de proteger Israel no sete de outubro, como indicam as próprias instituições do exército. Sua atenção estava voltada para a defesa dos colonos na Cisjordânia, que dentre outros absurdos haviam realizado um pogrom em Huwara ainda em fevereiro. São Forças de Defesa de Israel o que defendemos, não de Ocupação. A prioridade pela defesa é inegociável, e qualquer omissão de parte do exército, de seus oficiais, e de seus mandantes políticos, deverá ser investigada e punida.


[1] https://www.wzo.org.il/page/about/jerusalem-program


Descubra mais sobre Meretz Brasil

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo