Gusher: Mundos paralelos: algoritmos, Hasbará e guerra permanente | E mais, confira!

Por Yoel Schvartz – Publicação original no periódico Nueva Sion: https://nuevasion.org/archivos/43356

“Sionismo em Disputa” — ecos de uma noite histórica em São Paulo.

Confira o vídeo do evento que lotou a Sala Crisantempo e fortaleceu a construção de pontes entre Brasil, Israel e a diáspora judaica.

Na última semana, o Meretz Brasil reuniu vozes plurais para debater o presente e o futuro do sionismo. Em tempos de urgência democrática e crise humanitária, reafirmamos: há muitos caminhos possíveis — e o sionismo progressista é um deles.

MERETZ BRASIL: A CASA DO SIONISMO PROGRESSISTA


Mundos paralelos: algoritmos, Hasbará e guerra permanente

A comunicação de guerra israelense e seus reflexos no Ocidente configuram uma máquina narrativa que transforma a ocupação, a violência e o sofrimento em relatos simplificados, virais e indiscutíveis. Pode a irrupção do real — como a dor das vítimas ou a voz dos familiares de reféns — romper essas bolhas ideológicas?

Na obra “O Congresso” de Ari Folman (2013), a atriz Robin Wright (interpretando a si mesma) aceita um contrato futurista que permite a um estúdio de cinema escanear digitalmente toda sua identidade para usar sua imagem sem limites — com o preço de jamais voltar a atuar no mundo real. Anos depois, ao ser chamada para renovar o contrato em um “congresso de futurologia”, Wright adentra uma realidade alternativa completamente desconectada do mundo exterior ao inalar uma substância alucinógena que a transporta para um universo animado onde tudo é possível, as leis da física não se aplicam e cada pessoa pode se transformar no que desejar — mas de onde não é possível se comunicar com a realidade externa.

De forma análoga, no presente, as usinas de realidade alternativa — operando na interseção entre a sobrevivência política de lideranças autoritárias, a lucratividade das plataformas tecnológicas que monetizam a atenção fragmentada e a renúncia coletiva à responsabilidade social de enfrentar a complexidade do mundo — utilizam algoritmos como essa substância inalada por Wright: vão nos introduzindo, pouco a pouco, em bolhas narrativas personalizadas onde nossas fantasias e preconceitos são constantemente validados. Criam-se mundos paralelos impermeáveis, onde a complexidade social se dissolve em versões simplificadas e sedutoras da realidade. Tal como no filme de Folman, permanecemos desconectados das contradições e do sofrimento real do mundo exterior. As pessoas “dentro” não conseguem se comunicar com o lado de fora, e há uma espécie de barreira intransponível entre os dois mundos. Isso cria uma tensão dramática central: Wright fica presa nessa realidade fantástica enquanto sua vida real — incluindo seu filho doente e sua responsabilidade social primordial — continua lá fora, sem ela.


Hasbará: o cone de sentido e a máquina comunicacional do poder

Essa mecânica de desconexão da realidade torna-se particularmente evidente nas práticas comunicacionais de grande parte da Hasbará israelense, que, como estratégia de produção de conteúdos ideológicos, funciona de forma bidirecional por meio de marcos interpretativos que atuam como um “cone de sentido” — uma estrutura discursiva que vai estreitando progressivamente o campo de interpretações possíveis até canalizar o pensamento para uma única direção “lógica”, tornando impensáveis as alternativas.

Voltada ao exterior, tenta fazer com que audiências internacionais compreendam a guerra como uma resposta necessária e proporcional. Mas é no interior da sociedade israelense e das comunidades judaicas ao redor do mundo que esse cone opera com maior eficácia, pois ali é mais fácil controlar as variáveis da realidade intersubjetiva, produzindo a invisibilização tanto das imagens do sofrimento causado por Israel quanto das responsabilidades governamentais no próprio trauma.

A Hasbará atua como porta-voz oficial ou oficiosa de um governo que tenta sistematicamente minimizar, relativizar e escapar da responsabilidade sobre os fracassos do 7 de outubro, os reféns abandonados, as falhas de inteligência e os soldados que continuam morrendo. Esses temas só permanecem visíveis pela resistência de uma sociedade civil que o próprio governo gostaria de silenciar por completo. Enquanto os israelenses recebem principalmente informações sobre vitórias militares e a suposta superioridade regional, o desastre humanitário em Gaza é excluído do campo de visão da narrativa oficial.

Essa estratégia também é reproduzida por uma rede de indivíduos nas redes sociais — autoproclamados “influencers” — que rejeitam qualquer crítica como antissemitismo, argumentam que qualquer questionamento ao discurso oficial é, por essência, uma mentira, e insinuam que a população de Gaza “merece” o que estão sofrendo.


Entre a decepção e o realismo: os porta-vozes do consenso bélico

Esses personagens costumam se apresentar como figuras moderadas, distantes das ideias radicais de alguns membros do governo, ou como “arrependidos” cuja fé em algum entendimento com o mundo árabe foi quebrada pela violência de 7 de outubro ou outro evento traumático anterior. Constroem, assim, uma narrativa de decepção que justifica posições cada vez mais extremas.

Apesar de adotarem um tom aparentemente reflexivo e crítico em relação ao radicalismo explícito, na prática, reproduzem fielmente as mensagens do governo, legitimando a guerra sem fim por meio de uma retórica que se apresenta como dolorosamente realista, mas inevitável. Em sua maioria, esses influenciadores não atuam a partir de um planejamento consciente, mas reproduzem espontaneamente a ideologia dominante como prática cotidiana — sendo apenas uma minoria vinculada diretamente aos aparatos estatais.

A Hasbará atua como aquela substância que nos mergulha numa realidade alternativa onde a guerra é inevitável e bem-sucedida, sem responsáveis internos nem consequências externas visíveis. Isso serve ao principal interesse de sobrevivência política do governo Netanyahu e de sua coorte messiânica — que precisam manter o país em estado de guerra permanente para evitar julgamentos por corrupção e o colapso de sua coalizão extremista.

Paralelamente, as audiências ocidentais, por meio de redes de ativismo político, mídias alternativas e correntes intelectuais pós-coloniais, são expostas a um mecanismo de manipulação narrativa oposto, como em um espelho invertido da Hasbará: Israel é retratado como encarnação de todos os males do Ocidente, descontextualizando o papel do Hamas e do integrismo islâmico no conflito e retirando agência dos palestinos — e até mesmo de uma potência regional como o Irã — tratados exclusivamente como vítimas de um “colonialismo de assentamento”.

Essa polarização cria formas complementares de desconexão, que dificultam qualquer olhar para a irredutível humanidade das vítimas de ambos os lados do conflito.


“Sei que… mas ainda assim”: o consentimento passivo e a ideologia sem convicção

Nesse ambiente midiático, onde a retórica de “Vitória Total” e as soluções militares definitivas parecem possíveis e justificadas, opera justamente o que o filósofo Slavoj Žižek chama de ideologia contemporânea. Para Žižek, a ideologia não está no que pensamos, mas no que fazemos: não importa se as pessoas acreditam conscientemente nas ideias que justificam o poder — o importante é que ajam como se acreditassem.

As pessoas sabem que algo está errado, mas continuam agindo como se tudo estivesse certo.

Essa forma de ideologia se expressa quando parece que ela desapareceu: funciona por meio de gestos automáticos, reações “naturais”, atitudes que parecem espontâneas, mas que, na verdade, reproduzem a ordem vigente. Não são grandes discursos ou rituais solenes, mas pequenos gestos cotidianos: o scroll distraído que mistura vídeos de gatos, receitas e imagens de destruição como se fossem equivalentes; o like automático em conteúdos que reforçam nossos preconceitos; as conversas de café que evitam temas incômodos; o consumo passivo de notícias que confirmam nossas crenças prévias; ou o uso de imagens geradas por inteligência artificial para habitar mundos perfeitos onde nossos desejos se realizam sem consequências.

Nas sociedades contemporâneas, isso se expressa pela fórmula: “sei que… mas ainda assim” — os sujeitos suspeitam ou intuem as contradições, mas agem como se não as conhecessem, desenvolvendo mecanismos de desconexão que os permitem seguir funcionando.

Aqueles que promovem a retórica da “Vitória Total” querem cristalizar consenso em torno dessas estratégias, enquanto os consumidores dessa narrativa desconfiam que algo está errado — que “vencer” uma guerra não é vencer uma partida de soma zero, que se a guerra é tão bem-sucedida, já deveria ter acabado, que os reféns continuam em Gaza e muitos já morreram, que a destruição em Gaza provavelmente gera traumas que alimentarão décadas de ódio. Mas ainda assim continuam validando essas políticas através do consentimento passivo.

Essa prática desapegada é mais perigosa que o fanatismo tradicional, porque é imune à evidência. O sujeito ideológico contemporâneo já conhece os fatos — mas desenvolveu mecanismos para conviver com eles.

“Intuo que isso não vai resolver o problema de segurança, mas…”
“Suspeito que estamos criando mais inimigos do que eliminamos, mas…”
“É possível que as vítimas civis sejam moralmente inaceitáveis, mas…”

Essa suspensão consciente e sistemática das consequências reais permite que a máquina de guerra continue funcionando — não por convicção, mas por uma inércia adaptativa, onde todos participam do espetáculo sabendo que é insustentável, mas o usam como mecanismo de autoafirmação que os protege da necessidade de imaginar alternativas complexas ou de assumir responsabilidades.


Quando o simbólico se rompe: reféns, mísseis e imagens incômodas

A escalada entre Israel e Irã, iniciada em 13 de junho de 2025, representa o momento de máxima tensão para essa máquina de produção ideológica: quando essa “realidade animada” — o universo de fantasia onde tudo é possível e sem consequências — entra em confronto com a brutalidade física de suas próprias premissas.

Apesar dos ataques israelenses terem sido militarmente eficazes ao destruir instalações nucleares e eliminar comandantes iranianos, desencadearam ondas de mísseis que estão atingindo cidades israelenses, forçando evacuações em massa e confrontando a população com o custo real da retórica da “Vitória Total”.

Mas a distração também opera: a guerra com o Irã desviou a atenção dos 53 reféns restantes em Gaza, há mais de 600 dias. Ainda assim, em vez de despertar o público de suas bolhas, a máquina ideológica consegue metabolizar até essa realidade brutal: as imagens de civis em abrigos, os edifícios destruídos, as vítimas fatais são usadas como “prova” de que não há outra escolha senão intensificar a campanha; as imagens de destruição em Teerã “validam” a eficácia da estratégia.

Enquanto isso, os problemas fundamentais — os reféns, as falhas de inteligência, a devastação de Gaza — ficam eclipsados pelo espetáculo da nova guerra. É o pesadelo de Folman materializado: a incapacidade de escapar do próprio cone de sentido, mesmo quando a realidade se torna insuportavelmente brutal. Uma sociedade presa em sua fantasia, onde o sofrimento do outro reforça a própria narrativa, e o sofrimento próprio exige mais vingança, num ciclo onde cada escalada alimenta as fantasias — em vez de rompê-las.


O fim do feitiço: quando as fantasias já não bastam

Mas aqui ressoa a pergunta crucial: pode o Real romper os muros do Imaginário e abalar o Simbólico que os sustenta? As manifestações desesperadas das famílias dos reféns, que com seus corpos interrompem o espetáculo bélico; a realidade das vítimas civis que se recusam a virar estatísticas; as imagens do desastre no coração de Israel, confrontando seus habitantes com o custo concreto de suas fantasias de invencibilidade — são todos sinais de irrupções do Real que resistem à absorção pela máquina narrativa.

Como diz Žižek, é justamente nesses momentos de crise que a fantasia ideológica revela sua fragilidade: quando o sintoma — o sofrimento que a ideologia não pode simbolizar — torna-se evidente demais para ser ignorado.

A resistência se expressa nesses interstícios, onde a realidade traumática excede a capacidade da Hasbará de recontextualizá-la. Onde a dor dos reféns abandonados, a destruição mútua, a incompetência governamental se tornam inescapáveis. A questão é se essas fissuras terão força suficiente para romper o círculo mágico e nos tirar do encanto das fantasias ideológicas — ou se a máquina continuará metabolizando até o trauma mais extremo como combustível para perpetuar o espetáculo da guerra sem fim.

Na metáfora de Folman, a protagonista precisa renascer para romper aquela realidade fantasmagórica. Que forma terá o renascimento de Israel se, enfim, o cone de sentido se quebrar em mil pedaços?


Nota: Hasbará (do hebraico “explicar”) é o termo usado para descrever os esforços de comunicação pública do Estado de Israel, direta ou indiretamente por meio de organizações judaicas ao redor do mundo. É similar à “diplomacia pública” de outros países, mas opera em um contexto de conflito prolongado e atenção midiática intensa.

Texto escrito por Yoel Schvartz – Publicação original no periódico Nueva Sion: https://nuevasion.org/archivos/43356

Descubra mais sobre Meretz Brasil

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo