“Compreendendo o Sionismo” – reflexões do historiador e escritor iraniano, Arash Azizi.

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Compreendendo o Sionismo

Por Arash Azizi

Um verão, no Brooklyn, uma polêmica surgiu no grupo de WhatsApp do meu parque de cachorros. Até então dedicado apenas à manutenção do parque e ao bem-estar dos animais, o chat nunca havia tratado de política. Mas, de repente, alguém reclamou que uma empresa de seguro para cães era “sionista”, e um debate acalorado começou.

Os fundadores dessa empresa americana eram israelenses, e isso aparentemente bastava para que fosse rotulada assim. Não que fosse sequer necessário um vínculo tão frágil. Já vi atores, chefs e escritores serem chamados pejorativamente de “sionistas” por aqueles que querem desqualificá-los ou excluí-los. Criticar alguém por apoiar, por exemplo, o governo israelense ou sua guerra em Gaza é uma coisa. Mas essa acusação é mais ampla e vaga, muitas vezes feita em circunstâncias sem qualquer referência a Israel — em muitos casos funcionando apenas como um código antissemita.

Provavelmente eu era o único integrante do Oriente Médio naquele grupo. Também sou historiador de formação. Intervim para dizer que não achava adequado usar “sionista” como termo de desprezo. O sionismo é um movimento nacionalista, insisti, e como outros movimentos nacionalistas, tem uma história enraizada no século XIX — uma história que não é nem totalmente boa, nem totalmente má. Usar “sionista” como insulto é tão estranho quanto atacar alguém por ser nacionalista ganês ou chinês. Não sei quantas pessoas convenci, mas para mim a história do sionismo merece ser revisitada, como lembrança de seus impulsos e de sua diversidade inicial.

O movimento sionista moderno começou há 128 anos, em agosto de 1897, com um congresso de cerca de 200 pessoas em uma sala de concertos em Basileia, na Suíça. À frente dos líderes judeus que convocaram o encontro estava Theodor Herzl, advogado e jornalista nascido na Hungria, cuja longa barba e personalidade carismática lhe conferiam uma aura messiânica. A ideia central em discussão era, ao mesmo tempo, simples e revolucionária: que os judeus, então vivendo majoritariamente na Europa, construíssem uma nova sociedade na Palestina otomana.

Muitos judeus reconheciam a Palestina como sua pátria ancestral; ela fora, em tempos antigos, o local de um Estado judeu, destruído pelos romanos em uma série de cercos entre o século I a.C.E. e o século II C.E., que gradualmente expulsaram a maioria judaica da região por volta do século IV. No tempo do congresso sionista, a maior parte da população da Palestina era composta por árabes muçulmanos e cristãos, embora os judeus ainda fossem maioria na cidade sagrada de Jerusalém.

A ideia de que os judeus europeus poderiam retornar à Palestina não era nova. Ativistas judeus, como o pensador socialista alemão Moses Hess, já a defendiam no século XIX; no século XVII, o filósofo judeu holandês Baruch Spinoza havia predito que um Estado judeu surgiria. Líderes mundiais como Napoleão Bonaparte, da França, e Lord Palmerston, da Grã-Bretanha, também aventaram a ideia em diferentes momentos. Em 1881, em reação aos pogroms na Rússia, grupos judaicos que se autodenominavam Amantes de Sião começaram a organizar a migração para a Palestina e ajudaram a estabelecer assentamentos agrícolas ali.

O congresso de Basileia, no entanto, foi o momento em que os sionistas estabeleceram dois pontos que pavimentariam seu caminho para o sucesso: um programa definido e uma organização. Sempre pragmático, Herzl queria que os sionistas buscassem autorização do Império Otomano para o assentamento legal da Palestina, em vez de simplesmente migrar individualmente.

A Organização Sionista, fundada no congresso de Basileia, foi financiada por meio de taxas de adesão. Diferente de esforços anteriores, cresceu rapidamente. Os Amantes de Sião tinham apenas 23 filiais na Rússia antes de 1897. Um ano após o congresso de Basileia, a Rússia sozinha já contava com 356 filiais sionistas. A Organização Sionista cresceu para 100 mil membros em 1900 e 800 mil em 1923.

Os delegados em Basileia eram todos homens. Dezessete mulheres participaram do encontro, mas só puderam votar no ano seguinte. Os delegados vieram de cerca de 20 países, quase todos europeus, embora houvesse um representante da Argélia Francesa, cinco dos Estados Unidos e quatro da Palestina. Por causa das leis antissemitas aprovadas pelos suíços em 1893, a carne kasher não estava disponível localmente e teve de ser importada da Alemanha.

Poucos anos após o congresso, Herzl morreria. O Império Otomano desmoronaria depois da Primeira Guerra Mundial. Mas o pragmatismo de Herzl continuaria a orientar os métodos do movimento, à medida que a Palestina passava às mãos britânicas. O propósito e o caráter do encontro em Basileia também permaneceriam como marca.

Como movimento nacionalista, o sionismo estava profundamente em sintonia com a Europa do fin de siècle de onde surgira. Um grupo de homens reunidos em uma sala de concertos na esperança de fundar um novo país pode soar extravagante hoje. Mas o espírito da virada do século XIX estava repleto de projetos semelhantes — movimentos nacionais que buscavam esculpir espaços soberanos a partir dos antigos impérios.

Críticos de Israel frequentemente apontam que o país surgiu apenas recentemente. Mas o mesmo vale para muitos estados europeus. Na verdade, o sionismo foi, em parte, uma resposta à problemática nacionalista daquele período: tchecos, poloneses e outros grupos étnicos europeus começavam a reivindicar seus próprios estados, mas nem sempre incluíam seus irmãos judeus nesses projetos políticos. Os sionistas argumentaram que os judeus precisavam de um país próprio.

Na época da conferência de Basileia, o movimento sionista abrangia uma variedade de correntes. Uma divisão inicial opunha os “sionistas políticos” — que acreditavam que os judeus deveriam buscar uma licença política para se estabelecer em massa na Palestina — aos “práticos”, que defendiam que migrantes individuais deveriam simplesmente ir para lá e criar raízes.

Outro tema de debate era o tipo de ordem política que os judeus estabeleceriam na Palestina. Hoje, o objetivo do sionismo é comumente entendido como a formação de um Estado judeu, mas isso nem sempre foi consenso. Sionistas discordavam se a condição de Estado era necessária ou importante. Em Basileia, nem mesmo Herzl, que havia escrito no ano anterior o manifesto intitulado O Estado Judeu, insistiu nisso. O orador inaugural do congresso, Karpel Lippe, da Romênia, rejeitou explicitamente a busca por um Estado por dois motivos pragmáticos: primeiro, que os otomanos jamais aceitariam; segundo, que judeus religiosos se sentiriam desconfortáveis com aspectos do Estado moderno que não se conformassem à lei religiosa. Ainda na década de 1930, congressos sionistas rejeitavam propostas que buscavam a criação de um Estado judeu.

Os primeiros sionistas tinham diferentes visões sobre religião. Herzl e muitos outros luminares sionistas vinham de origens seculares, mas o movimento também incluía judeus mais observantes. Herzl fez um discurso em Basileia apoiado sobretudo em apelos universalistas à civilização e à história humanas, mas incluiu algumas menções de caráter religioso. O rabino ortodoxo de Basileia discursou no congresso (ainda que tenha esclarecido que não era ele próprio sionista). Alguns outros rabinos também falaram, incluindo Zadoc Kahn, o rabino-chefe da França. Isso foi demais para o químico secular Chaim Weizmann, que mais tarde se tornaria o primeiro presidente de Israel; ele acusou Herzl de ceder ao “clericalismo”. Outro orador chegou a declarar: “Todo judeu que se mantém fiel à sua religião deve ser um social-democrata!” (referência ao Partido Social-Democrata alemão, explicitamente marxista na época). Herzl o repreendeu e defendeu a pluralidade política.

Apesar de todas essas diferenças, os sionistas permaneceram na mesma organização e aprovaram em conjunto o Programa de Basileia, que buscava “estabelecer na Palestina um lar para o povo judeu, assegurado pelo direito público”. Os termos “lar” (Heimstatt em alemão, língua predominante do encontro) e “direito público” foram intensamente debatidos, mas a formulação foi aprovada em votação. Outras divergências foram resolvidas pelo mesmo método democrático em congressos posteriores.

Uma coisa à qual os sionistas em Basileia não deram muita atenção foi o fato de que a população árabe da Palestina dificilmente acolheria milhões de migrantes judeus. No terceiro dia do congresso, um delegado de Praga comentou que, na Palestina, “os árabes zombam e hostilizam os recém-chegados”. Mas esse tipo de reconhecimento era raro; quase nenhum outro orador mencionou os árabes palestinos.

Nos anos seguintes, os sionistas expressariam várias crenças otimistas sobre como seriam recebidos pelos árabes. Ze’ev Jabotinsky foi uma rara exceção. Nascido em Odessa, Jabotinsky ascendeu na década de 1920 como principal líder do sionismo de direita. Diferente de seus concorrentes da esquerda, ele não alimentava ilusões sobre fraternidade socialista entre os povos e advertia que os árabes resistiriam aos migrantes judeus assim como os astecas resistiram aos conquistadores espanhóis.

Ao contrário de alguns de seus sucessores à direita, Jabotinsky se opunha à expulsão dos árabes da Palestina e acreditava que “sempre haveria duas nações na Palestina”. Ele chegou a imaginar um Estado no qual cada presidente judeu serviria ao lado de um vice-presidente árabe. Mas não tinha ilusões quanto à inevitabilidade dos choques.

O sionismo não era o único movimento judaico da época. O fato de que se tornaria o mais bem-sucedido deveu-se tanto às circunstâncias históricas quanto ao movimento em si.

Algumas semanas após o Primeiro Congresso Sionista, um grupo de judeus socialistas se reuniu no que hoje é Vilnius, na Lituânia, para fundar o Bund, a União Geral dos Trabalhadores Judeus. Assim como os sionistas, os bundistas consideravam os judeus uma nacionalidade própria. Mas se opunham à migração para a Palestina e defendiam que os judeus lutassem por autonomia cultural nos países em que viviam. Bundistas e sionistas, às vezes, trabalhavam juntos — por exemplo, na luta contra o antissemitismo na Polônia. Mas a ocupação nazista da Europa e a perseguição de Hitler com a “Solução Final” acabaram tornando impossível o programa bundista, e muitos de seus militantes buscaram refúgio na Palestina.

Após a Segunda Guerra Mundial, as Nações Unidas determinaram a formação de um Estado judeu na Palestina. Assim, em 1948, nasceu o Estado de Israel, 50 anos depois de Basileia. O primeiro-ministro David Ben-Gurion comemorou o aniversário do congresso sionista de 1897 como “o maior da nossa história”.

O congresso de Basileia revelou um pragmatismo que mais tarde ajudaria Israel a florescer e perseverar, assim como uma diversidade que contribuiria para o dinamismo do país. Mas também expôs algo mais sombrio: a tendência de muitos sionistas de ignorar as preocupações — e até a própria existência — de seus vizinhos árabes palestinos, cuja identidade nacional se formaria em oposição à deles.

Com o tempo, sionistas de todas as correntes foram obrigados a sair dessa negação. Mas somente em 1993 o Estado de Israel reconheceria que uma nação palestina compartilhava a terra entre o rio e o mar. Desde 1967, Israel mantém uma ocupação militar sobre milhões de palestinos na Cisjordânia e em Gaza; hoje, opõe-se à formação de um Estado palestino já reconhecido pela maioria dos países do mundo.

Ainda assim, essa oposição não deve ser entendida como a única posição sionista. A Organização Sionista fundada em Basileia ainda existe e realizará seu próximo congresso mundial em outubro, em Jerusalém. Ali, sionistas de todas as correntes debaterão, assim como fizeram em 1897. Os Sionistas Progressistas da América, por exemplo, defenderão “um caminho diplomático que garanta liberdade, segurança e soberania tanto para israelenses quanto para palestinos.” Outros sionistas também defendem a criação de um Estado palestino.

Essa história de dissenso e multiplicidade — essa luta para definir a identidade de uma nação e sua relação com aqueles com quem compartilha uma terra — não é exclusiva do sionismo. Outros movimentos nacionalistas percorreram trajetórias semelhantes. O historiador canadense Faisal Devji comparou o sionismo ao nacionalismo paquistanês, já que ambos rejeitam “vínculos hereditários entre etnia e solo em favor de uma pertença baseada apenas em uma ideia de pertencimento.” O intelectual britânico Perry Anderson viu a trajetória de Israel como semelhante às da Índia e da Irlanda: todos tiveram movimentos nacionais fundados por líderes seculares que foram posteriormente superados por rivais religiosos e “mais extremos”. Movimentos nacionalistas na Hungria, Sérvia, Sri Lanka, Malásia, Iraque e Peru também enfrentaram dilemas semelhantes sobre inclusão, especialmente no que se refere a minorias religiosas e étnicas.

Enxergar o sionismo de forma histórica ajuda a revelá-lo não como um monólito caricatural, mas como um movimento nacionalista como tantos outros — que abrange um passado complexo, ideias concorrentes e um futuro cujas possibilidades ainda não se esgotaram.

Por Arash Azizi

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