Leia os 5 artigos traduzidos e adaptados pelo Meretz Brasil.
Os grandes promotores do antissemitismo global
Extremistas no Oriente Médio estão alimentando a violência antijudaica em todo o mundo
Por Arash Azizi – The Atlantic
Lynda Ben-Menashe, presidente do Conselho Nacional de Mulheres Judaicas da Austrália, expressou um sentimento preciso após o ataque terrorista ocorrido ontem em Bondi Beach. Disse estar “horrorizada e devastada”, mas acrescentou: “não surpresa”.
De fato, como alguém poderia se surpreender? O atentado, no qual uma dupla formada por pai e filho atacou judeus que celebravam o Chanuká e matou ao menos 15 pessoas, foi o mais letal da história da Austrália. Mas os acontecimentos vinham se acumulando desde 7 de outubro de 2023. Forças poderosas, muito distantes da Austrália, responderam ao conflito em Gaza promovendo o antissemitismo em escala global — e atos de violência como o de Sydney são um resultado previsível desse processo.
Nos últimos dois anos, a minoria judaica australiana — cerca de 117 mil pessoas em um país de quase 28 milhões — tem sido alvo de um ataque contínuo. Escolas judaicas, sinagogas, padarias e 0 foram pichadas com símbolos nazistas e mensagens como “Fuck Israel”. Carros e até uma cervejaria foram incendiados em ataques ligados a ódio antijudaico. Dois enfermeiros gravaram um vídeo no qual ameaçavam matar pacientes israelenses em seus hospitais ou se recusavam a atendê-los. Um trailer carregado de explosivos foi encontrado com uma lista de sinagogas em seu interior. Instituições judaicas da Austrália registraram quase 4.000 incidentes antissemitas entre outubro de 2023 e outubro de 2025. Em março, o chefe da inteligência australiana afirmou que o antissemitismo era a principal prioridade de sua agência “em termos de ameaça à vida”.
Os autores do ataque de ontem parecem ter ligação com o Estado Islâmico. Acredita-se que sejam de origem paquistanesa. O mais jovem, Naveed Akram, de 24 anos, nasceu na Austrália e era cidadão australiano. Seu pai e coautor do ataque, Sajid, chegou ao país com visto de estudante em 1998. As agências de inteligência australianas monitoraram Naveed por um período, a partir de 2019, devido a seus vínculos com uma célula local do ISIS, mas aparentemente concluíram que ele não representava ameaça. A dupla teria jurado lealdade ao grupo jihadista sunita e mantinha uma bandeira do ISIS em seu carro. O ISIS já não controla territórios ou populações no Oriente Médio como no auge de seu poder, em 2015, mas no último sábado seus militantes mataram dois soldados americanos e um civil dos Estados Unidos na Síria.
Se o ataque em Sydney estiver de fato ligado ao ISIS, isso pode encerrar uma linha de investigação que Israel vinha explorando: o envolvimento do Irã. A hipótese não era descabida. Em agosto, a Austrália expulsou o embaixador iraniano após “informações de inteligência confiáveis” ligarem Teerã a vários ataques contra judeus australianos, entre eles um atentado contra um restaurante kosher em Sydney e outro contra uma sinagoga em Melbourne. Em seguida, a Austrália aprovou uma lei que proíbe organizações classificadas como patrocinadoras estatais do terrorismo. A primeira entidade designada com base nessa lei foi o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma poderosa milícia que controla grande parte do aparato militar e da economia iraniana.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã apressou-se em se distanciar do ataque em Bondi Beach. “Por princípio, o Irã condena o ataque violento contra civis em Sydney, Austrália”, publicou um porta-voz na rede X. “Violência terrorista e assassinatos em massa devem ser condenados, onde quer que ocorram, por serem ilegais e criminosos.” (Israel classificou a resposta iraniana como enganosa.)
Mas veículos associados ao IRGC adotaram um tom bem diferente. A agência Tasnim, principal porta-voz do IRGC, estampou a manchete: “Ao menos dez sionistas mortos no Chanuká, na Austrália”. O texto utilizava o termo depreciativo halakat, geralmente empregado para designar a morte de animais ou de pessoas cuja morte não é considerada digna de lamento. Além disso, descrevia Chanuká como uma “celebração sionista”. (A Student News Network, administrada por um braço estudantil do IRGC, usou exatamente a mesma linguagem.)
A confusão deliberada entre prática religiosa judaica e sionismo não é novidade. Em 2019, a Tasnim condenou Chanuká como “não uma festa religiosa judaica, mas um evento colonial sionista”. Bahrein e Emirados Árabes Unidos reconhecem oficialmente o Chanuká — no caso dos Emirados, inclusive com exibições públicas em Dubai — e o regime iraniano e seus aliados os atacam constantemente por isso. Em 2022, Isa Qassim, principal clérigo xiita do Bahrein e aliado de Teerã, publicou: “Eles querem nos forçar a nos tornar uma sociedade judaica?”. Horas antes do ataque em Bondi Beach, um pesquisador iraniano — filho do ex-enviado do Irã a Camberra no início dos anos 1990 — publicou no X que Chanuká era “uma festa satânica de círculos maçônicos”.
Veículos iranianos de linha dura oscilaram entre descrever o ataque como um ato de ira justificada e apresentá-lo como uma operação de falsa bandeira conduzida por Israel. No jornal Hamshahri, atualmente dirigido por setores radicais, um analista escreveu que “a indignação generalizada contra Israel após o genocídio em Gaza poderia fornecer o pano de fundo” para o ataque. A agência Mehr, ligada a um alto órgão do regime, adotou linha semelhante. Mas ambos também difundiram teorias conspiratórias. A Mehr destacou um analista que afirmou que o evento teria causado um “choque emocional”, “reconstruindo a simpatia da opinião pública no Ocidente e reduzindo a pressão sobre Israel”. Ele chegou a mencionar os ataques de 11 de setembro como outro exemplo potencial de operação de falsa bandeira. Ali Akbar Raefipour, um influente disseminador de teorias conspiratórias antissemitas no Irã, alegou ter previsto, em outubro de 2023, que Israel recorreria a esse tipo de ataque; ele republicou uma teoria semelhante divulgada por Candace Owens.
A influência regional direta do Irã diminuiu com o enfraquecimento de sua rede de milícias anti-Israel ao longo dos últimos dois anos de conflito. Mas o extremismo não foi erradicado dos territórios antes dominados por Teerã. Hadi Hoteit, correspondente da emissora estatal iraniana Press TV em Beirute, questionou se Naveed Akram poderia realmente ser considerado terrorista, já que teria matado apenas “pessoas que continuam a apoiar um Estado que realizou um genocídio contínuo contra os povos indígenas da Palestina e do Líbano por 77 anos”. Hoteit também é produtor da Free Palestine TV, um canal extremista administrado por um ativista sírio-canadense cujo pai foi diplomata da Síria. O canal celebrou o ataque de Sydney por ter matado “10 judeus supremacistas, cidadãos australianos com dupla nacionalidade”, que estariam “descansando do árduo trabalho do genocídio no Levante”.
A realidade dura é que o extremismo antissemita não é exclusividade do ISIS, nem apenas do Irã e de seu chamado “Eixo da Resistência”. Seu alcance se estende a qualquer lugar onde haja judeus: uma sinagoga em Manchester, na Inglaterra; um calçadão em Boulder, no Colorado. Muitos críticos de Israel repudiam esse tipo de ataque. Mas as alas mais extremas do movimento anti-Israel encorajaram aqueles que se recusam a condenar até mesmo os assassinatos mais explícitos e brutais.
A humanidade em meio ao horror em Bondi Beach
Por Sharon Brous – The New York Times em 15 de Dezembro de 2025.
Há um horror particular nos ataques violentos cometidos em dias sagrados e em lugares sagrados. Esse é o terror em sua forma mais pura: não apenas torna um povo temeroso de expressar sua fé, como também o condena a associar para sempre esses dias santos à perda e à dor.
A festa de Simchat Torá, celebração judaica da alegria e do abraço da Torá, ficará permanentemente ligada às imagens de morte e destruição após os ataques de 7 de outubro de 2023. E agora, pouco mais de dois anos depois, outro feriado judaico foi marcado pelo terror: Chanuká, o milagre da persistência da luz em tempos de escuridão, quando judeus reunidos para celebrar em uma praia de Sydney, na Austrália — um grupo de crianças, pais, mães e idosos — foram alvejados sem piedade.
Estou cansada de procurar o “lado positivo” depois de tragédias como essa. Já não quero ouvir, após um massacre, sobre as formas admiráveis como uma comunidade se uniu. Não quero platitudes nem piedades vazias. Quero justiça. Quero responsabilização pela retórica, pelas políticas e — no nosso próprio país — pelo acesso obscenamente fácil a armas de guerra, que colocam a todos nós em risco. Não quero celebrar a resiliência; quero ver reformas concretas.
Mas, no plano espiritual, eu preciso urgentemente desse lado positivo. Preciso dos sinais de humanidade que nos lembram que o que é não é necessariamente o que deve ser. Da insistência silenciosa de que há mais luz do que escuridão neste mundo, de que a ternura e o amor podem prevalecer até mesmo sobre o ódio mais virulento. Dê-me o contra factual que torne impossível cair no desespero, que me impeça de escorregar para a certeza autodestrutiva de um destino inevitavelmente sombrio.
Um grande rabino hassídico do século 20, Shalom Noach Berezovsky, conhecido como o Netivot Shalom, ensinava que “todos os milagres e maravilhas que ocorreram para o povo judeu ao longo das gerações foram despertados pela recusa em aceitar as circunstâncias tal como elas se apresentavam”.
Ele chamava isso de kusta d’chiyuta — a pequena e sagrada centelha de vitalidade que contém a luz da esperança e da possibilidade de um futuro melhor.
Depois de Sydney, depois de testemunhar os atiradores em fúria — supostamente pai e filho, unidos em seu ódio contra o meu povo — depois de ler sobre o sobrevivente do Holocausto que morreu protegendo sua esposa, sobre a menina de dez anos, sobre um rabino, e tantos outros; depois de tudo isso, eu preciso dessa centelha de vitalidade. Preciso do lembrete, por menor que seja, de que não devemos sucumbir à escuridão.
E aqui está esse vislumbre de humanidade, essa centelha de vitalidade: eu a vejo em Ahmed el Ahmed, o vendedor de frutas que arriscou a própria vida para derrubar um dos atiradores, sem dúvida salvando muitas outras.
E há mais. Vejo essa centelha na força vibrante da comunidade judaica global, que imediatamente se mobilizou em solidariedade, lembrando-nos de que, quando um membro é ferido, todo o corpo adoece. Por mais distantes que estejamos — geográfica, política ou religiosamente — somos família.
Vejo essa centelha na forma imediata e inequívoca com que o grão-mufti da Austrália condenou, “nos termos mais fortes e categóricos”, o ataque terrorista direcionado contra judeus australianos.
Vejo essa centelha em todas as pessoas de bem, ao redor do mundo, que entraram em contato com preocupação genuína com seus vizinhos, colegas e amigos judeus.
Na semana passada, foram divulgados vídeos de seis reféns sequestrados no festival Nova e nos kibutzim da fronteira em 7 de outubro. Esses seis foram mantidos por quase um ano em túneis profundos sob a terra de Gaza, antes de serem executados por seus captores do Hamas, em agosto de 2024.
Nos vídeos, os reféns recitam as bênçãos de Chanuká e acendem velas. Juntos, cantam Ma’oz Tzur (frequentemente traduzido como “Rochedo dos Tempos”), a canção tradicional que acompanha o acendimento das velas de Chanuká — um testemunho da sobrevivência judaica ao longo das eras e da força encontrada na fé em Deus. Eles riem uns com os outros quando alguém pergunta: onde estão as sufganiyot, os tradicionais sonhos de Chanuká?
Então Hersh Goldberg-Polin, de 23 anos, lembra ao grupo de uma fotografia famosa: uma chanukiá — o candelabro de Chanuká — no parapeito de uma janela em Kiel, na Alemanha, registrada em 1931, com as cortinas abertas. Ao fundo, vê-se uma bandeira com a suástica pendurada no prédio em frente. É um sinal, uma prece. Um símbolo de desafio eterno.
No verso da fotografia, está escrito:
“Chanuká 5692 / ‘Morte a Judá’, diz a bandeira. ‘Judá viverá para sempre’, responde a luz.”
Quando eu acender as velas de Chanuká este ano, pensarei nesses seis judeus, abraçados uns aos outros, muitos metros abaixo da terra destruída de Gaza, sorrindo, brincando e cantando baixinho, mesmo temendo, certamente, que talvez não saíssem vivos dali.
E guardarei a imagem da chanukiá no parapeito da janela na Alemanha, como um sinal de desafio às forças da escuridão. E pensarei em Ahmed el Ahmed, agradecendo a Deus por ter colocado neste mundo uma alma tão corajosa e decente.
E lembrarei que a luz nasce do meio da escuridão mais profunda e impenetrável. Isso sempre foi verdade — e continua sendo hoje.
Rabina Brous é a fundadora e rabina sênior da Ikar, uma comunidade judaica sediada em Los Angeles, e autora de “The Amen Effect”.
Não é justo nem racional. Mas o massacre de Bondi é um lembrete de que os judeus sempre serão alvos
Tentar contextualizar ou racionalizar a violência antissemita devastadora na Austrália é inútil enquanto ódios irracionais continuarem existindo. A vigilância eterna sempre será o preço da vida judaica — em Israel e na Diáspora.
Por Anshel Pfeffer – Haaretz.com
Na minha última visita à Austrália, em setembro de 2023, as ruas do bairro fortemente judaico onde eu estava hospedado estavam cheias de anúncios oferecendo: “Voe para Israel com a Emirates neste feriado”. Eu participava do Limmud Oz, um festival de estudo e cultura judaica que se alterna anualmente entre Melbourne e Sydney, e, não pela primeira vez, fiquei impressionado com a autoconfiança de uma das comunidades judaicas mais orgulhosas, diversas e apaixonadas que já visitei.
Há algo nos judeus australianos que lhes permite afirmar com clareza suas identidades — como australianos e como judeus, e também sua afinidade com Israel — de uma forma refrescantemente livre do conflito interno que aflige seus irmãos nos Estados Unidos e na Europa. É uma comunidade que inclui todos os tons e estilos do judaísmo, do obscurantismo haredi até a última escola bundista ultrassecular ainda existente no mundo.
Os judeus australianos, muitos — se não a maioria — descendentes de sobreviventes do Holocausto, conseguem reconhecer a própria sorte no refúgio que seus pais e avós encontraram “lá embaixo”, ao mesmo tempo em que permanecem conscientes dos desafios enfrentados por seus irmãos e irmãs em outras partes do mundo. Tudo isso fazia parte do mundo anterior a 7 de outubro. Um mês depois da minha partida, as coisas mudaram para os judeus em todos os lugares — inclusive na Austrália.
O ataque e massacre cometidos pelo Hamas ocorreram a 14 mil quilômetros de distância, mas levaram a uma nova realidade: multidões gritando “fodam-se os judeus” e, segundo algumas testemunhas, “gaseiem os judeus”, nos centros das cidades australianas; escolas judaicas e sinagogas atacadas com coquetéis molotov e profanadas com suásticas.
Agora, na primeira noite de Chanuká, isso culminou no pior ataque contra uma comunidade da Diáspora judaica neste século — na praia de Bondi, em Sydney, de todos os lugares. Se existe uma comunidade capaz de se reerguer e mostrar ao mundo que seu país continua sendo um dos melhores lugares para se viver como judeu, tenho certeza de que são os judeus australianos. Eu gostaria que todos nós tivéssemos o mesmo senso de pertencimento e identidades tão sólidas.
Nenhum contexto é necessário
Enquanto os corpos ainda jazem naquela praia deslumbrante, que reinventa a paleta de cores da natureza a cada pôr do sol, começam as tentativas de racionalizar e contextualizar o ocorrido — muitas vezes por observadores bem-intencionados e perfeitamente racionais.
É sobre Israel.
É sobre Gaza.
É sobre imigração.
É sobre as leis de armas da Austrália.
Como se não tivéssemos testemunhado, ao longo de nossas próprias vidas, assassinatos em massa de comunidades judaicas em diferentes partes do mundo antes de 7 de outubro, e por razões aparentemente distintas, em outros contextos.
Judeus, onde quer que vivam e façam o que fizerem, são alvos. Sempre fomos. Pode ser difícil para quem acredita viver em um mundo racional compreender isso. Mas ódios irracionais existem. E judeus são assassinados fora de qualquer contexto.
O assassino de 11 judeus na sinagoga Tree of Life, em Pittsburgh, em 2018, não era um imigrante radicalizado. Era um supremacista branco americano que culpava os judeus por ajudarem imigrantes a entrar nos Estados Unidos. Quando seis judeus foram assassinados em 2008 na Casa Chabad em Mumbai, aquilo fazia parte de um ataque de uma organização jihadista paquistanesa contra o Estado indiano. Em nenhum dos dois casos as vítimas tinham qualquer relação com as causas que os perpetradores alegavam defender.
Assim como uma celebração de acendimento de velas de Chanuká na praia de Bondi não tem absolutamente nada a ver com as crenças — sejam elas quais forem — do pai e do filho que ali permaneceram por longos minutos, disparando contra as pessoas, assassinando ao menos 15 delas. Nada e tudo, ao mesmo tempo.
Em todas as minhas conversas e entrevistas com sobreviventes do Holocausto ao longo dos anos, nunca ouvi nenhum deles perguntar por que eles, suas famílias e seus vizinhos haviam sido marcados para a exterminação. Era uma pergunta absurda. Eles sabiam a resposta, como escreveu Natan Alterman em 1942:
“Porque Tu nos escolheste entre todas as nações,
nos amaste e nos desejaste.
Ao choro de nossos filhos, sob a sombra das forcas,
não ouvimos o clamor do mundo.”
Eles sabiam que todas as razões são válidas: porque os judeus seriam capitalistas sugadores de sangue ou bolcheviques assassinos; porque estariam orquestrando a substituição dos brancos ou porque teriam se aliado aos opressores brancos; porque estariam colonizando a Palestina ou porque vivem o mais longe possível dela. Simplesmente porque sim.
Esse é o ponto de partida. Judeus, onde quer que vivam e façam o que fizerem, são alvos. Sempre fomos. Pode ser difícil para quem acredita viver em um mundo racional compreender isso. Mas ódios irracionais existem. E judeus são assassinados fora de qualquer contexto.
Isso não significa que contextos não existam. Políticas de imigração e segurança importam, assim como o controle de armas e os limites da liberdade de expressão. Em muitos casos, eles fazem a diferença entre a vida e a morte. O governo australiano, liderado pelo bastante fraco Anthony Albanese, tem muito a responder por sua reação morna à onda de ataques antijudaicos dos últimos dois anos — assim como o governo israelense de Benjamin Netanyahu, sob cujo comando ocorreu o pior massacre de judeus desde o Holocausto, e que ainda tenta, dois anos depois, escapar de sua responsabilidade.
Netanyahu e seus ministros são as últimas pessoas no mundo que deveriam dar lições a outro governo sobre a segurança dos judeus. E a alegação de que o reconhecimento, por parte do governo australiano, de um Estado palestino (um gesto vazio e ineficaz em si mesmo) teria contribuído para o ataque em Bondi Beach é uma tentativa patética de um governo israelense profundamente desacreditado de explorar a tragédia dos judeus australianos para ganhos políticos baratos. Isso está no mesmo nível moral de tentar culpar as vítimas, alegando que “mereceram” o ataque por apoiarem Israel.
É responsabilidade de todo governo proteger seus cidadãos e reconhecer a ameaça específica enfrentada por suas comunidades judaicas.
Não existe solução perfeita para garantir a segurança da vida judaica. O ataque em Bondi Beach não significa que os judeus australianos devam fugir para Israel. Assim como 7 de outubro não foi prova de que Israel não pode servir como refúgio. Judeus devem ser livres para escolher onde querem viver e sempre terão de equilibrar a tensão entre segurança e a possibilidade de viver vidas judaicas visíveis e abertas — assim como seus governos precisam encontrar o equilíbrio correto entre sociedades abertas e redes de segurança e vigilância. E governos em Jerusalém (infelizmente não este) precisam combinar dissuasão militar com diplomacia regional para garantir o futuro de Israel.
Mas, quer os judeus escolham viver em sua terra ancestral ou na Diáspora, a conclusão permanece a mesma: vigilância eterna, porque a ameaça é eterna. Esse sempre foi o preço da vida judaica.
Não é justo.
Não é racional.
Mas aos judeus não é permitido sequer um único país totalmente seguro.
Não precisávamos de Bondi Beach para sermos lembrados disso.
O ataque de Bondi e a névoa cognitiva do antissemitismo online
Por Dra. Tehilla Shwartz Altshuler – IDI
No rescaldo do ataque a tiros durante a celebração de Chanuká na praia de Bondi, vimos, mais uma vez, um ecossistema digital pronto para inundar o espaço público com conteúdo antissemita e desinformação sobre o atentado. Formuladores de políticas públicas precisam estabelecer condições mínimas para proteger as sociedades democráticas em um mundo no qual ataques físicos e narrativas digitais estão profundamente entrelaçados.
O ataque em Bondi Beach trouxe israelenses e muitos judeus ao redor do mundo de volta a uma experiência tristemente familiar: o choque imediato diante da violência, seguido quase instantaneamente por horas de confusão, distorção e hostilidade no ambiente online. Para muitos, o pós-ataque digital ecoou os dias que se seguiram a 7 de outubro de 2023. O que deveria ter sido um momento de clareza e compaixão foi rapidamente eclipsado pela negação de fatos, identificações falsas e um enquadramento acelerado do evento por meio de narrativas conspiratórias, antissemitas e anti-israelenses.
Isso já não se trata de reações isoladas na internet. Atos violentos contra judeus hoje se desenrolam dentro de um ambiente informacional pré-existente, projetado para distorcer, inflamar e radicalizar — um ecossistema transversal a múltiplas plataformas, sentido de forma mais visível nas redes sociais, mas que também atravessa veículos tradicionais de imprensa, grupos criptografados e, cada vez mais, ferramentas baseadas em inteligência artificial. Nesse ambiente, os fatos raramente se estabilizam antes de serem contestados ou soterrados, e os judeus se veem, mais uma vez, forçados a uma posição dolorosa, defensiva e confusa.
O ataque de Bondi Beach é mais um nó nesse ciclo de retroalimentação: incitação online, violência offline e, em seguida, novas ondas de ódio que preparam o terreno para o próximo ataque.
Um ecossistema multiplataforma construído para amplificar o antissemitismo
A distribuição é o motor desse ecossistema. As narrativas migram com fluidez: uma manchete enganosa vira um vídeo viral; o vídeo se transforma em meme; o meme é reforçado em grupos privados de mensagens; chatbots ou sistemas de resumo baseados em IA fazem ressurgir fragmentos descontextualizados. Cada etapa fortalece a impressão de consenso, ao mesmo tempo em que apaga a origem da informação e dilui a responsabilidade.
O problema se agrava com o uso de táticas linguísticas que escapam à moderação de conteúdo. “Sionista” frequentemente funciona como um substituto de “judeu”, e tropos antissemitas codificados — como a ideia de que judeus controlam a mídia — passam pelos filtros automatizados por parecerem “positivos” ou “neutros” em sua formulação literal. Sistemas de moderação treinados sobretudo para detectar insultos diretos falham em identificar a estrutura conspiratória que caracteriza o antissemitismo.
A inteligência artificial acelera ainda mais esse processo. Sistemas generativos podem produzir grandes volumes de conteúdo de ódio, enquanto redes coordenadas de bots e usuários humanos o disseminam de forma estratégica por meio de postagens e comentários. As ondas de antissemitismo que seguem ataques violentos já não são reações espontâneas. Elas são amplificadas por um ecossistema informacional maduro, preparado para a escalada.
Operações de influência e a dimensão “fígital” do conflito
Concentrar-se apenas nas falhas das plataformas é ignorar uma transformação mais ampla. Assim como vimos após 7 de outubro, eventos como o ataque de Bondi Beach passam a ser utilizados como ferramentas em operações coordenadas de influência cognitiva. Governos como os do Irã e do Catar, junto com atores intermediários e redes ideológicas, semeiam e sincronizam narrativas hostis em diferentes plataformas. O objetivo é fragmentar a confiança social, inflamar emoções e remodelar a percepção compartilhada da realidade.
Tropos antissemitas são particularmente úteis nesse tipo de operação porque oferecem explicações simples para eventos complexos e circulam facilmente entre diferentes culturas. Em contextos de guerra, analistas já descreveram esse fenômeno como uma “oitava frente”. O conflito se desenrola simultaneamente por meio de ataques físicos e da manipulação da cognição digital. O que se seguiu a Bondi tornou isso dolorosamente evidente, mais uma vez.
Sistemas de IA entram no campo de batalha
As horas posteriores ao ataque em Bondi Beach também revelaram como os sistemas de inteligência artificial não apenas refletem, mas agora participam ativamente desse ambiente. O Grok, assistente de IA da plataforma X, identificou incorretamente o civil que desarmou um dos atacantes, descartou imagens autênticas como conteúdo viral não relacionado e introduziu propaganda anti-israelense em respostas a perguntas que não tinham qualquer ligação com Israel. Esses resultados não foram simples “alucinações” isoladas — fazem parte de um padrão de névoa cognitiva que desestabiliza fatos básicos, desvia a atenção e obscurece a clareza moral exatamente no momento em que informações precisas são mais necessárias. Quando sistemas de IA operam em larga escala e em tempo real, eles não apenas refletem o ambiente informacional: tornam-se agentes dentro dele.
Um poder sem precedentes: por que os governos não podem ser passivos
Quando empresas privadas controlam as condições pelas quais as sociedades interpretam eventos e atribuem responsabilidades, a autorregulação voluntária das plataformas é insuficiente. A atuação dos governos é essencial. Ainda assim, Estados democráticos hesitam, presos entre preocupações legítimas com liberdade de expressão, pressões geopolíticas e uma indústria tecnológica que prefere a auto governança.
Dois polos regulatórios moldam hoje o cenário global. Nos Estados Unidos, esforços para regular plataformas digitais são frequentemente enquadrados como censura. Na União Europeia, a abordagem envolve uma supervisão muito mais assertiva. Comunidades judaicas — assim como muitos outros grupos vulneráveis — acabam presas entre esses dois modelos.
O que formuladores de políticas podem fazer agora
Formuladores de políticas precisam compreender que o que aconteceu após Bondi Beach representou uma violação da nossa segurança cognitiva. O ambiente digital no qual o antissemitismo prospera hoje é moldado pela arquitetura das plataformas, por sistemas de IA opacos e por operações de influência que exploram ambos. Enfrentar isso exige mais do que pedir às empresas que removam conteúdos nocivos. É necessário estabelecer regulações e mecanismos de fiscalização que garantam transparência real sobre como a informação é amplificada, como usuários são segmentados e quando conteúdos são gerados por máquinas; investir em recursos de segurança capazes de expor manipulações coordenadas de algoritmos; e criar marcos regulatórios que tratem o design de plataformas e sistemas de IA como questões de interesse público, e não apenas como motores de lucro.
Não se trata de medidas radicais nem de limites não-razoáveis à liberdade de expressão — são condições básicas para proteger sociedades democráticas em um mundo onde ataques físicos e narrativas digitais se entrelaçam. Comunidades judaicas, assim como todos os grupos vulneráveis, não podem depender de promessas voluntárias de empresas de tecnologia cujos incentivos recompensam o escândalo e a confusão. Garantir a segurança cognitiva deve ser uma responsabilidade central dos governos, e chegou a hora de as instituições judaicas e o Estado de Israel assumirem um papel ativo na construção das políticas que determinarão se a próxima crise será enfrentada com clareza ou com mais uma onda de distorção e incitação ao ódio.
Alex Kleytman sobreviveu ao Holocausto — e morreu salvando a esposa em um ataque antissemita em Bondi Beach
Por Ofer Aderet – Haaretz.com
Cinco anos antes de ser assassinado, o engenheiro civil aposentado, autor de dois livros sobre história judaica, descreveu suas crescentes preocupações com o futuro da comunidade judaica na Austrália. “Há cada vez mais fotos de cemitérios profanados e de suásticas nas paredes das sinagogas. Precisamos ser fortes.”
Durante a Segunda Guerra Mundial, a mãe de Alex Kleytman, Eva, foi presa no campo de concentração de Pechora, administrado pelos romenos na Transnístria, região que hoje faz parte da Ucrânia.
“O objetivo desse campo não era matar, mas fazer as pessoas morrerem de fome e de trabalho forçado”, escreveu Alex em 2020. “Ela conseguiu sobreviver. Suas memórias podem ser ouvidas no Yad Vashem”, acrescentou, referindo-se ao memorial do Holocausto em Jerusalém. Outros membros da família também sobreviveram.
Foi uma jornada longa e árdua. Sua filha, Sabina, contou que o trem em que viajavam foi bombardeado no caminho, e muitas pessoas morreram durante o trajeto. Durante a fuga para o leste, o pai de Alex adoeceu, foi hospitalizado e acabou separado da família.
Mais tarde, ele conseguiu se reunir com eles, e juntos chegaram à Sibéria, onde viveram em um único quarto pequeno, enfrentando severas privações de comida e aquecimento. Segundo Sabina, a desnutrição e a superlotação cobraram um preço físico elevado de seu pai — um impacto que o acompanhou pelo resto da vida.
Após a guerra, a família retornou à Ucrânia. Ao descobrirem que sua casa em Odessa havia sido destruída, mudaram-se para Lviv. Lá, Alex conheceu Larisa, também sobrevivente do Holocausto, com quem se casou. O casal teve uma filha e um filho.
A família foi forçada a esconder sua identidade judaica e conviveu com o antissemitismo, mas, como lembrou Sabina, seu pai permaneceu “um judeu orgulhoso”. Kleytman trabalhou como engenheiro civil. Duas décadas após o fim da guerra, a família solicitou permissão para imigrar para Israel, mas o pedido foi negado pelas autoridades soviéticas. Como resultado, Alex passou a integrar o grupo dos chamados refuseniks — judeus impedidos politicamente de emigrar.
Em 1992, após o colapso da União Soviética, a família finalmente pôde deixar o país e se estabelecer em Sydney. Kleytman trabalhou para grandes empresas de construção e participou de projetos emblemáticos, incluindo a construção do Estádio Olímpico da cidade. Segundo a família, foi apenas na Austrália que ele pôde, de fato, “celebrar seu judaísmo”.
Há cerca de uma década, aos 76 anos, aposentou-se e passou a se dedicar a documentar a vida dos judeus na União Soviética em dois livros de sua autoria: um sobre soldados judeus que lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, e outro sobre a vida judaica na URSS entre 1948 e 1953.
“As memórias de Alex são particularmente angustiantes; ele recorda as condições terríveis na Sibéria, onde, junto de sua mãe e de seu irmão mais novo, lutou para sobreviver”, descreveu um relatório anual da Jewish Care, organização que oferece serviços de assistência a judeus idosos na Austrália.
“As cicatrizes do passado, no entanto, não os impediram de buscar um futuro melhor”, acrescentou o relatório. “Sua resiliência, força e capacidade de adaptação são um testemunho da natureza duradoura do espírito humano.”
“A cada ano, há menos pessoas que foram libertadas dos campos”, disse Kleytman em 2020. “Precisamos ser fortes e capazes de nos posicionar por nós mesmos, e não esquecer aqueles judeus que combateram o inimigo nos anos distantes da Segunda Guerra Mundial.”
Mas, nos dois anos que se seguiram ao ataque de 7 de outubro, ele também passou a temer pelo futuro do judaísmo australiano. “Em meio ao amor e à memória, surgem cada vez mais fotos e mensagens sobre cemitérios profanados, suásticas pintadas nas paredes das sinagogas e ataques a sinagogas”, acrescentou.
Apesar desses temores, Kleytman participou, no domingo, das celebrações de Chanuká na praia de Bondi, em Sydney, ao lado da esposa. Quando os tiros começaram, ele a protegeu com o próprio corpo, salvando-lhe a vida. Kleytman foi morto, tornando-se uma das 15 vítimas do ataque.
“Nós estávamos em pé e, de repente, vieram os ‘boom, boom’, e todo mundo caiu”, contou sua esposa. Ele a abraçou no chão, protegendo-a.
“[Sempre foi] uma celebração muito, muito bonita, por muitos e muitos anos”, disse ela, referindo-se às celebrações de Chanuká que costumavam frequentar juntos.
Outro parente, Georg Abendlich, afirmou que as pessoas deveriam aprender com a história de Alex.
“Ele atravessou a humanidade em seu momento mais sombrio, depois reconstruiu sua vida na Austrália e envelheceu ali, apenas para ser tirado de nós em uma atrocidade que parece impossível de processar”, disse. “Peço a todos que leem isto que levem o antissemitismo a sério. Não o descartem como ‘apenas palavras’ ou ‘política’.”
Uma amiga da família, Liana, acrescentou: “Não foi para isso que você sobreviveu. Você sobreviveu para viver a sua vida e desfrutá-la.”
Alex deixa a esposa, dois filhos e 11 netos.
