GUESHER: Os 11 movimentos de Netanyahu que levam Israel da democracia ao autoritarismo

Artigo de Michael Hauser Tov, publicado no portal Haaretz.com, em 24 de janeiro de 2026. Traduzido e adaptado pelo Meretz Brasil.

Os 11 movimentos de Netanyahu que levam Israel da democracia ao autoritarismo

De restrições à liberdade de expressão ao enfraquecimento do Judiciário e à deslegitimação da oposição, o governo está transformando Israel em algo cada vez mais próximo da Rússia, da Turquia ou da Hungria. Especialistas explicam até que ponto.

Os 11 movimentos de Netanyahu que levam Israel da democracia ao autoritarismo

De restrições à liberdade de expressão ao esforço de minar o Judiciário e à deslegitimação da oposição, o governo está transformando Israel em algo cada vez mais próximo da Rússia, da Turquia ou da Hungria. Especialistas explicam até que ponto.

Não passa um dia sem que alguém alerte para o declínio de Israel em direção aos territórios sombrios da autocracia. No início deste mês, foi o ex-presidente da Suprema Corte Aharon Barak quem explicou, em termos simples, que Israel já vivia sob um regime de governo de um só homem e não era mais uma democracia liberal. Barak discursava em um protesto contra o governo no terceiro aniversário do lançamento da tentativa do ministro da Justiça, Yariv Levin, de enfraquecer o Judiciário.

Desde 4 de janeiro de 2023, sob um governo de direita cujo chefe está absorvido pelo seu julgamento por corrupção, Israel mudou drasticamente. Em geral, a transição de uma democracia para um regime autoritário não acontece de repente nem segundo uma única fórmula.

Ao redor do mundo, as características democráticas de um país podem se deteriorar rapidamente — ou lentamente. Por exemplo, um ano após o início do segundo mandato de Donald Trump, o presidente fala com irresponsabilidade e mobiliza a Guarda Nacional em cidades dos Estados Unidos com certa leviandade, mas a Constituição permanece inalterada.

Com base no trabalho de um grupo de pesquisa norte-americano publicado no The New York Times e em consulta com pesquisadores israelenses — alguns deles do Instituto da Democracia de Israel — o Haaretz mapeou 11 aspectos centrais da mudança no caráter democrático de Israel.

Para cada aspecto ao longo dos últimos três anos, quatro especialistas usaram uma escala entre uma democracia plena (1) e um regime totalmente autoritário (10). Os quatro especialistas foram: a Dra. Yael Shomer, professora sênior da Escola de Ciência Política da Universidade de Tel Aviv; o Prof. Yaniv Roznai, vice-diretor da faculdade de direito da Universidade Reichman; o Prof. Yoav Dotan, da Faculdade de Direito da Universidade Hebraica de Jerusalém; e a Dra. Ilana Shpaizman, professora sênior do Departamento de Estudos Políticos da Universidade Bar-Ilan.

Dotan acredita que “ainda é cedo para fazer o obituário da democracia liberal em Israel”. Ele observa que o Judiciário, que chama de a garantia mais forte para preservar a democracia e o principal alvo de Levin e seus aliados, “bloqueou de forma muito eficaz a maioria das tentativas de mudar a forma de governo”.

Ainda assim, diz, “a erosão da democracia se reflete nos distúrbios de colonos na Cisjordânia, na menor consideração da polícia pelo interesse nacional e nos golpes contra a liberdade de expressão, especialmente a liberdade de expressão dos cidadãos árabes. Isso significa que não há espaço para complacência, e precisamos nos preparar para garantir que a eleição seja justa este ano”.

Como Shomer coloca, “Israel está caminhando para um futuro autoritário” e, além das tentativas do governo de tomar o controle de órgãos que deveriam limitar seu poder, a “natureza democrática da próxima eleição está sob risco real”. Ela afirma que “tudo isso ocorre junto de um fracasso profundo na educação cívica. Há duas décadas, valores liberais-democráticos vêm sendo colocados de lado, substituídos por um discurso nacionalista limitado”.

Roznai diz que “se o golpe judicial tivesse sido legislado da forma como foi proposto no início de 2023, Israel teria deixado de ser uma democracia liberal e teria se tornado uma democracia esvaziada — e é isso que está vindo, a menos que a liderança israelense faça uma mudança brusca em breve”.

Ainda assim, diz, “nem tudo está perdido. Ainda existe uma procuradora-geral independente e forte — ela é a primeira linha de defesa da democracia dentro do governo. E ainda há uma Suprema Corte independente, embora desfalcada e sob ataque, e há uma sociedade civil viva e ativa. Ainda podemos recalibrar, mas isso exige uma mudança de governo”.

Shpaizman não se mostra tão preocupada com a legislação do golpe judicial quanto com aquilo que chama de “atividade informal” — esforços feitos sob as leis existentes ou em uma zona cinzenta. “Três coisas são os golpes mais duros. Primeiro, o golpe contra o serviço público, que se reflete principalmente em nomeações políticas nos ministérios e em ignorar ou abusar dos profissionais”, diz.

“Segundo, o governo atropelando o Knesset e desfazendo a separação de poderes; e terceiro, as ações da polícia contra opositores do governo, desenhadas para dissuadir e reduzir a liberdade de protesto, assim como as ações da polícia na comunidade árabe”.

Shpaizman argumenta que ainda há mecanismos eficazes para interromper essa queda, “mas eles não serão suficientes sem protestos públicos contínuos”.

Em resumo: Israel está em declínio em cada um dos aspectos revisados. O regime pode não ser autoritário, mas o declínio já não é um alerta — é um fato. A história mostra que é difícil reverter essa tendência, porque a destruição pode acontecer em um minuto, mas o reparo exige mais tempo, no melhor dos casos.

Restrições à liberdade de expressão

Restrições à liberdade de expressão são indispensáveis para regimes autoritários que buscam consolidar poder, e isso foi visto de várias formas em Israel. O aspecto mais óbvio tem sido o tratamento dado aos manifestantes, que às vezes são presos ou humilhados, ou até sofrem violência severa.

Às vezes, as restrições são impostas bem antes do evento. Foi o caso nas semanas após 7 de outubro, quando a polícia proibiu cidadãos árabes israelenses de protestar contra a guerra; ou no mês passado, quando proibiu torcedores do Hapoel Tel Aviv de entrar em um estádio com camisetas com slogans de protesto — alguns deles contra a polícia.

E cerca de um ano antes disso, ativistas colocaram panfletos em uma sinagoga frequentada por Yuli Edelstein, do Likud, então presidente do Comitê de Relações Exteriores e Defesa do Knesset. Três mulheres foram presas. Em tempos como estes, até acender velas em protesto em frente à casa do ministro da Educação pode ser motivo de prisão.

A polícia às vezes é acompanhada por outras instituições, como o município de Haifa, que enviou fiscais para assediar manifestantes antigoverno, ou a Universidade de Tel Aviv, que recentemente ampliou restrições a protestos no campus.

A noção de que a liberdade de expressão pode ser restringida por não se alinhar à linha do governo também parece estar chegando à geração mais jovem. Um exemplo ocorreu no fim do mês passado: alunos de uma escola de ensino médio perto de Tel Aviv cuspiram em manifestantes que protestavam contra o ministro da Educação — e foram respaldados pela diretora.

O golpe contra a liberdade de expressão não atinge apenas manifestantes antigoverno; a polícia também tem mirado outros segmentos da sociedade, incluindo ultraortodoxos e até ativistas de direita.

Perseguição de oponentes políticos

Ao contrário da Rússia ou da Turquia, nenhum líder da oposição foi preso em Israel. Mas as autoridades certamente têm selecionado líderes e ativistas dos protestos, às vezes convocando-os para interrogatório, como fez no mês passado o serviço de segurança Shin Bet.

Além disso, a polícia vem monitorando ativistas, como Michal Deutsch, recordista israelense de prisões em protestos. Deutsch fundou o grupo Changing Direction.

Às vezes, as tentativas de prejudicar ativistas partem de autoridades eleitas, como quando a deputada do Likud Tally Gotliv expôs a identidade do marido de Shikma Bressler — um funcionário do Shin Bet — e espalhou a mentira de que líderes dos protestos cooperaram com o alto comando para tornar possível o massacre do Hamas em 7 de outubro.

O ministro da Justiça, Levin, por sua vez, fez recentemente uma ameaça velada à deputada de esquerda Naama Lazimi. “Quero dizer a você: a proteção da qual você tem desfrutado por parte daqueles que deveriam garantir a aplicação igual da lei também vai acabar”, disse ele da tribuna do Knesset.

Atropelamento do Legislativo

Devido ao sistema de governo de Israel, seu Legislativo sempre foi dependente do Executivo. Mas o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seus ministros obtiveram um grau crescente de liberdade de ação no Knesset.

O aspecto mais evidente é o enfraquecimento da capacidade do Knesset de supervisionar as ações do governo. Isso inclui a ausência de autoridades em reuniões de comissões, ocultação de dados, ignorar questionamentos e ataques verbais a profissionais dos ministérios e de outros órgãos.

Outro exemplo é a destituição de Edelstein como presidente do Comitê de Relações Exteriores e Defesa do Knesset, por se opor a um projeto de lei que isentaria a comunidade ultraortodoxa do recrutamento. Outro é a tentativa do ministro das Comunicações, Shlomo Karhi, de ampliar o controle do governo sobre emissoras israelenses. Outro é a decisão de fechar a Rádio do Exército — medida que, segundo a procuradora-geral, precisaria passar pelo Knesset.

Uso das forças de segurança no espaço interno

Líderes de países autoritários gostam de usar forças de segurança e, em Israel, o uso do Exército nas ruas é inimaginável — ao menos até agora.

Ainda assim, mudanças significativas vêm sendo observadas nos últimos meses, especialmente desde que David Zini foi nomeado chefe do Shin Bet. Pela primeira vez na história do órgão, o chefe do Shin Bet se mostrou disposto a usar seus agentes contra o crime na comunidade árabe. E o governo autorizou a transferência de 220 milhões de shekels (US$ 69 milhões) do plano quinquenal para a sociedade árabe para o Shin Bet e a polícia.

Enquanto isso, a força que deveria proteger israelenses em casa — a polícia — na prática tem ameaçado cidadãos em algumas partes do país. Moradores da aldeia beduína de Tarabin, no sul, passaram recentemente por uma operação de duas semanas que, segundo moradores, incluiu interrogatórios do Shin Bet e a detenção de crianças. Moradores do campo de refugiados de Shuafat, em Jerusalém Oriental, relataram experiência semelhante na semana passada.

Violações de decisões judiciais

Em Israel, o esforço para deslegitimar o Judiciário tem sido um dos pilares antidemocráticos centrais do governo. Após a Suprema Corte, atuando como Alta Corte de Justiça, bloquear certas novas leis, Levin e a vasta maioria do gabinete se recusaram a reconhecer o presidente da Corte, Isaac Amit.

O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, chamou Amit de “violento, implacável, megalomaníaco que está roubando a democracia israelense”, dizendo que “o resultado será que vamos atropelá-lo — não haverá outra escolha”.

Enquanto isso, aumentam os apelos para que decisões da Alta Corte sejam ignoradas, o que empurraria Israel para uma crise constitucional. Na semana passada, líderes de partidos da coalizão governista pediram a Netanyahu que não obedecesse à Corte caso ela aceite as petições que exigem a demissão do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir.

Outros exemplos aparecem na questão do recrutamento ultraortodoxo, na nomeação de um responsável por supervisionar a investigação sobre o ex-advogado-geral militar, e no isolamento da procuradora-geral. Em todos esses casos, a Alta Corte decidiu — e o governo seguiu por conta própria.

Atropelamento de órgãos de controle

Governantes autoritários também se dedicam a desmontar — ou ao menos enfraquecer — órgãos de controle, em parte nomeando aliados políticos para esses postos. Em Israel, o principal exemplo é a tentativa do governo de demitir a procuradora-geral Gali Baharav-Miara, que se recusou a permitir que ministros avançassem com medidas potencialmente ilegais e prejudiciais ao público.

As tentativas de substituí-la começaram nos primeiros dias do governo de várias maneiras, mas a Alta Corte não permitiu que ministros a demitissem. O governo não desistiu: agora tenta dividir o cargo de procuradora-geral. É impossível saber o que acontecerá se isso também chegar à Alta Corte.

Enquanto isso, o governo simplesmente ignora as opiniões da procuradora-geral, alegando que não são vinculantes, como fez ao afastar outro órgão de controle, o então chefe do Shin Bet, Ronen Bar. Essa decisão também gerou uma petição à Alta Corte, mas o governo obteve o que queria quando Bar renunciou.

Também houve legislação afirmando que as opiniões de assessores jurídicos dos ministérios não são vinculantes, além de um projeto para nomear um comissário do serviço público sem processo competitivo adequado e para restringir a independência do chefe da polícia.

Declaração de estado de emergência

Líderes autoritários frequentemente declaram estado de emergência para flexibilizar o regime legal; decisões rápidas são tomadas e força excessiva é empregada. Em Israel, não há necessidade de declarar estado de emergência: ele está em vigor desde os primeiros dias do Estado e é prorrogado anualmente.

Mas a guerra iniciada em 7 de outubro de 2023 parece ter oferecido terreno fértil para explorar essa situação, incluindo restrições a protestos e à mídia. Como muitas das medidas do governo nos últimos anos foram feitas durante uma guerra, é difícil separar o que foi ação de um governo em tempos de guerra e o que foi parte do esforço de enfraquecer o Judiciário e outros pilares da democracia israelense.

E um argumento volta a aparecer: Netanyahu teria prolongado a guerra de forma desnecessária, recusando-se a encerrá-la por interesses políticos estreitos.

Controle da mídia

O controle da informação disponível ao público é crucial para líderes que buscam preservar seu governo. Em Israel, uma ofensiva contra a mídia vem ocorrendo nos últimos anos, embora a maioria dos projetos de lei nesse sentido ainda não tenha sido aprovada.

O principal movimento é a tentativa de Karhi de criar uma nova autoridade cujos membros seriam nomeados pelo governo, permitindo supervisão política sobre o conteúdo transmitido. As emissoras comerciais Canal 12 e Canal 13 estão preocupadas.

Enquanto isso, o governo aprovou o fechamento da Rádio do Exército e ameaçou fechar a divisão de notícias da emissora pública Kan. O Canal 14, por sua vez, não tentou esconder seu apoio ao governo e a Netanyahu, e recebeu benefícios regulatórios.

A mídia de radiodifusão não é o único alvo. Em novembro de 2024, o governo cancelou suas assinaturas do Haaretz, conclamando todas as agências estatais a fazerem o mesmo.

Segundo relatos, o Exército adotou abordagem semelhante, cancelando assinaturas para seus oficiais — medida que pode afetar financeiramente o jornal. Mesmo antes disso, o ministro da Defesa, Israel Katz, instruiu os militares a banirem repórteres do Haaretz de briefings e a se recusarem a falar com eles.

O tratamento dado a jornalistas também piorou. Um exemplo é a prisão do jornalista Israel Frey, mantido em condições de detento de segurança. Outro é a convocação do comentarista jurídico do Canal 13, Aviad Glickman, para interrogatório, sob alegação de que ele teria empurrado um funcionário do Gabinete do Primeiro-Ministro.

Tomada da academia

Líderes na Rússia, Hungria, Índia e Estados Unidos aprenderam que a academia é um polo de liberalismo — e por isso tentaram controlar universidades e currículos. Em Israel, um projeto de lei permitiria uma tomada completa do ensino superior.

Isso incluiria a destituição de todos os membros do Conselho de Educação Superior após as eleições gerais deste outubro e o controle governamental do orçamento do ensino superior (14 bilhões de shekels por ano). O governo também poderia multar universidades e faculdades e decidir questões para o Conselho de Educação Superior.

Mesmo antes disso, o ministro da Educação, Yoav Kisch, conseguiu nomear aliados para o conselho. No ensino básico e médio, Kisch convocou diretores para esclarecimentos quando eles pediram o retorno dos reféns e o fim da guerra, ou quando criticaram o governo. E, em julho, o governo garantiu que pessoas que criticam o país não possam receber o Prêmio Israel.

Deslegitimação da oposição

As vítimas mais óbvias da deslegitimação em Israel são políticos árabes, especialmente seus partidos, que na maioria das pesquisas televisivas são apresentados como um bloco separado, e não como parte da oposição.

Nos últimos anos, Netanyahu reiterou que partidos árabes não são parceiros legítimos de governo. Esse tipo de discurso já era comum na direita antes da última eleição, especialmente durante o ano e meio do governo Naftali Bennett–Yair Lapid, quando a Lista Árabe Unida, de Mansour Abbas, fez parte da coalizão.

Até líderes de partidos do governo anterior — incluindo Bennett e Avigdor Lieberman (e, de forma mais reservada, Lapid) — declararam que partidos árabes permanecerão de fora caso esse bloco volte a formar governo.

Benny Gantz foi além na semana passada quando seu partido centrista divulgou um vídeo declarando que qualquer governo que dependesse do apoio da Lista Árabe Unida seria perigoso para a segurança de Israel.

Outros exemplos incluem expressões como “traidores esquerdistas” que, sob a lógica da “máquina do veneno” de Netanyahu, tornaram-se corriqueiras. O porta-voz da polícia chegou a dizer que essas duas palavras não necessariamente configuram incitação.

Exploração da lei para permanecer no poder

Até agora, o único esforço claro nesse sentido foi o que permite que Netanyahu permaneça como primeiro-ministro apesar de estar sendo julgado criminalmente. Uma lei com esse objetivo entrará em vigor no próximo Knesset.

Ainda assim, um grande ponto de interrogação paira sobre a próxima eleição. A coalizão declarou mais de uma vez o desejo de mudar a lei e politizar o Comitê Central de Eleições ou reduzir o limiar eleitoral de 3,25%. Outras mudanças podem vir.

Artigo de Michael Hauser Tov, publicado no portal Haaretz.com, em 24 de janeiro de 2026. Traduzido e adaptado pelo Meretz Brasil.
Artigo original:
https://www.haaretz.com/israel-news/2026-01-24/ty-article-magazine/.premium/netanyahus-11-moves-taking-israel-from-democracy-toward-authoritarian-rule/0000019b-dbad-d4f5-a7ff-dfbd42160000

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