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MERETZ BRASIL | ESCALADA ISRAEL x IRÃ

A recente escalada entre Israel e Irã é mais um capítulo de uma região marcada por instabilidade e riscos reais. Como sionistas progressistas, reafirmamos nosso apoio à segurança de Israel e reconhecemos a complexidade do cenário geopolítico atual.

Este momento se entrelaça com outras urgências que seguem ativas: a situação dos reféns israelenses ainda em cativeiro e a crise humanitária e de insegurança alimentar que a população civil enfrenta em Gaza. Ambos exigem atenção constante e soluções responsáveis.

É possível — e necessário — sustentar um olhar ético que inclua o compromisso com a vida, com os direitos humanos e com um futuro de coexistência, afirmando valores que orientem saídas políticas e humanas.

Seguimos acreditando que o caminho passa por segurança para Israel, dignidade para todos os povos da região, e renovação com lideranças comprometidas com a paz justa e negociada.


Martin Buber: Por uma ética do diálogo

Por Noam Kramer

Martin Buber ( 1878-1965 ) foi um dos maiores pensadores judeus do século XX. Suas reflexões influenciaram diversos campos como a teologia, psicologia, psiquiatria, educação entre outras áreas. Filósofo que conseguiu equilibrar práxis e logos como poucos, Buber é reconhecido por sua filosofia do Encontro. Sua mais notável contribuição reside nas relações Eu-Tu e Eu-Isso, onde Buber condensa ensinamentos da mística judaica hassídica e da filosofia ocidental. Sua vida e obra formam uma trilha única, marcada por um compromisso radical com o diálogo: entre pessoas, entre povos, e entre o ser humano e o divino. Seu legado nos convida a uma pergunta urgente: Ainda há espaço para a construção de diálogo entre os diferentes?

Juventude, formação e o despertar para o diálogo (1878–1904)

Martin Buber nasceu em Viena, em 1878, e cresceu em Lemberg (atual Lviv, na Ucrânia), em uma família judaica de raízes hassídicas. Órfão de mãe desde os três anos, foi criado por seu avô Solomon Buber, um renomado erudito da literatura rabínica e da Haskalá, que lhe ofereceu um ambiente intelectual rigoroso e um forte vínculo afetivo à tradição judaica.

Durante a juventude, afastou-se da prática religiosa, mergulhando nos estudos de filosofia, literatura e arte em Viena, Berlim e Leipzig. Foi influenciado por Kant, Nietzsche e Kierkegaard, mas também por figuras judaicas como Ahad Ha’am. É neste período que Buber começa a desenvolver sua própria forma de religiosidade: marcadamente existencial e vincular, e não apenas dogmática e baseada em preceitos abstratos. Esse percurso o conduziria, em poucos anos, à sua primeira grande paixão intelectual: o Hassidismo.

O Hassidismo como espiritualidade relacional

De forma sucinta, pode-se dizer que o Hassidismo é um movimento místico judaico que propôs uma renovação perante a espiritualidade e contato com o divino. Diferente do Rabinismo tradicional do século XV que pregava uma dissociação entre a espiritualidade e o mundo terreno, o Hassidismo propõe a fusão entre espírito e mundo. É precisamente no mundo terreno e cotidiano que se alcança a espiritualidade. Seus valores centrais são Alegria, Fervor, Intencionalidade, Justiça e Humildade.

Além dessa dissociação entre cotidiano e espiritual, o judaísmo ashkenazi presenciava uma decepção com falsos messias (o mais famoso foi Shabtai Tzvi), além da pobreza nos shtetls e na recorrência de pogroms. Logo, a renovação Hassídica tornou a espiritualidade acessível, visto que era possível esforçar-se por um convívio justo e ético entre todos. Baal Shem Tov é o grande líder desse movimento, e provavelmente foi ele que deu lugar de destaque para a figura do Tzadik (Justo, da mesma raiz etimológica de Tzedek – צֶדֶק – Justiça). O Tzadik então torna-se figura principal de grandes histórias contadas pelos diversos seguidores, anciãos e rabinos. Acaba-se criando uma figura folclórica, e ao mesmo tempo, alguém essencialmente humano e profundamente atravessado por uma bússola ética. Alguém que sofre, que ama, que se esforça, que se distrai. Alguém próximo, que ensina valores por ações éticas valorosas, e não somente leituras valiosas.

Em sua coletânea As Histórias do Rabi e no breve ensaio O Caminho do Homem, Buber oferece ao leitor moderno uma leitura existencial do Hassidismo: o ser humano é convocado a ocupar “o lugar onde está” com inteireza, responsabilidade e abertura ao mistério.

Essa visão de uma religiosidade que se realiza na relação e na escuta prepara o terreno para a sua teoria mais conhecida: a distinção entre as relações Eu-Tu e Eu-Isso.

“Eu e Tu”: a filosofia do encontro (1923)

Publicada em 1923, a obra Eu e Tu expressa de forma clara a filosofia central de Buber: o ser humano vive entre dois modos fundamentais de relação.

A palavra-princípio Eu-Tu é a que podemos ter com outro ser humano, com a natureza, ou com o divino, quando estamos presentes de forma inteira, sem buscar dominar ou explicar, mas nos relacionar.

Na relação Eu-Tu, diz Buber, não apenas encontramos o outro, encontramos a nós mesmos e, em última instância, encontramos Deus. É possível vivenciar o infinito da complexidade e singularidade humana. Ocorre somente no encontro do aqui-e-agora, do momento. Para que ocorra é preciso Presença, Reconhecimento/Mutualidade e Diálogo.

Já na palavra-princípio Eu-Isso, estamos no campo da experiência utilitária, objetiva, passível de sistematização e teorização. Não deve ser vista como menos importante que Eu-Tu, pois se relaciona com a sobrevivência funcional, a organização, e o desenvolvimento do conhecimento prático.

Se Eu-Tu reside na experiência relacional, Eu-isso reside na experiência do Uso, encerra algo nisso mesmo que se é momentaneamente. Uso uma bicicleta para me transportar, uso uma lâmpada para iluminar. Uso um médico para me consultar, uso um rio pra me banhar.

“Se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem” (Martin Buber)

Essa filosofia do diálogo não ficou restrita à esfera pessoal. Ela foi aplicada por Buber também à política, à educação, à convivência inter-religiosa e, especialmente, à sua visão do sionismo.

Sionismo Cultural

Buber inicia seu percurso no movimento sionista ainda muito novo, sendo influenciado por Theodor Herzl. Mas no Quinto Congresso Sionista, em 1901, houve uma importante dissidência que formalizou a ala mais progressista do Sionismo. Essa posição de um Sionismo que se preocupasse com a questão árabe na Palestina, é também compartilhada com outras lideranças como Berl Katznelson, importante figura do Sionismo Trabalhista. Para figuras como Katznelson e Buber o convívio pacífico com os árabes deveria ser pensado como prioridade, antes do mero pragmatismo político com as forças Otomanas e depois Britânicas.

De 1916 a 1924, Buber editou a influente revista Der Jude (“O Judeu”), onde reverberava um paradigma para o judaísmo moderno: nem assimilado, nem fechado em si mesmo, mas ativo no mundo e enraizado em sua herança espiritual. Foi nesse período que Buber refinou seu ideal de um sionismo cultural e espiritual concebido por Ahad Ha’am, que não visava apenas a reunião ou um aglomerado de judeus em um Estado, mas a construção de um centro espiritual do povo judeu, marcado por seus valores mais nobres: ética, educação, espiritualidade e pluralismo.

Esse sionismo cultural se opunha tanto ao nacionalismo europeu tradicional quanto ao universalismo assimilacionista. Buber almejava ser judeu no mundo, com o mundo, mas sem perder a singularidade. Ele via o retorno a Tzion como uma chance única de renovar o espírito do povo judeu. De reconstruir, na Terra de Israel, uma sociedade ética, inspirada nos valores proféticos e nas experiências comunitárias variadas. Além de Ahad Ha’am, Eliezer Ben-Yehuda é uma figura central para o renascimento do hebraico como língua falada, e por consequência, de um instrumento léxico para o vínculo nacional dos judeus de Israel e da Diáspora.

Martin Buber ganhou força na década de 1920, com a fundação do Brit Shalom (1925). A proposta era clara: o sionismo só seria legítimo se não negasse os direitos dos habitantes árabes da região. O Brit Shalom, porém, foi amplamente criticado, e dissolveu-se em 1933, com o avanço do ultranacionalismo e da tensão política.

Fuga da Alemanha nazista e imigração para a Palestina (1938)

Com a ascensão do nazismo, Buber passou a sofrer perseguições em Frankfurt, onde lecionava filosofia e dirigia a Academia Judaica para Educação. Em 1938, após ter sua cátedra cassada, imigrou para a Palestina Britânica, fixando-se em Jerusalém.

Ali, passou a lecionar na Universidade Hebraica, onde ministrou cursos sobre religião, ética e filosofia judaica. Embora respeitado como intelectual, nunca ocupou posição de liderança institucional, pois suas ideias, especialmente sua crítica ao nacionalismo judeu e à expulsão de árabes, eram vistas como inconvenientes ou utópicas.

Ihud e o sonho binacional (1942–1950)

Durante a década de 1940, Buber ajudou a fundar o Ihud (União), uma nova tentativa de propor uma solução binacional para o futuro da Palestina/Terra de Israel (Eretz Israel), especialmente no contexto dos debates sobre o fim do Mandato Britânico.

O Ihud defendia:

  • Uma constituição comum para judeus e árabes;

  • Igualdade de direitos civis, culturais e políticos;

  • Cooperação mútua no governo e na sociedade;

  • Rejeição à lógica de Estado-nação exclusivo.

Mesmo após a criação do Estado de Israel, em 1948, Buber continuou defendendo os direitos dos árabes palestinos, criticando a destruição de vilarejos e a política de exclusão. Para ele, o novo Estado precisava estar à altura da ética judaica, caso contrário, corria o risco de repetir, agora como maioria, os erros que os judeus haviam sofrido como minoria na sua história enquanto povo.

Martin Buber faleceu em Jerusalém em 1965, aos 87 anos. Sua visão dialógica do judaísmo e sua proposta de um sionismo ético continuaram a ecoar em círculos de educação, filosofia, diálogo inter-religioso e ativismo progressista. Hoje, seu legado se mantém vivo em movimentos e organizações que atuam na linha de uma convivência justa e plural, que reconheça a autodeterminação dos povos como valor intransponível.

Conclusão

Não seria adequado recorrer a Martin Buber de forma anacrônica. Suas reflexões foram escritas em um contexto específico, entre o fim do Mandato Britânico e os primeiros anos do Estado de Israel. Contudo, é justamente na distância histórica que sua voz se torna tão incômoda quanto necessária. Se é verdade que o cenário atual é atravessado por novas feridas e por uma complexidade que ele não viveu, também é verdade que o colapso da dimensão Eu-Tu, do reconhecimento recíproco entre os distintos, é um dos traços mais dolorosos da tragédia israelo-palestina contemporânea. Quando o outro é reduzido a ameaça, obstáculo ou inimigo, só nos resta a barbárie. O pensamento de Buber nos recorda que nenhum projeto nacional pode se sustentar legitimamente sobre a recusa radical do outro. Seu legado não aponta saídas fáceis, mas nos devolve perguntas incômodas:

As lideranças israelenses e palestinas não enxergam nas suas populações humanidade? Até quando trataremos milhões de pessoas como meros peões a serviço de interesses que nada tem de emancipatórios? Quem enxerga no Outro um Tu, ao invés de um simples obstáculo ameaçador?

Martin Buber, que falta fazem lideranças políticas da sua grandeza ética.

*Por Noam Kramer: psicólogo, psicodramatista e psicanalista. Participou do movimento Chazit Hanoar SP, integra o grupo de pesquisa “Diálogos da Diáspora – Racismo e Antissemitismo” (Labô) e o programa de liderança Maavar (Fisesp). Judeu sionista, acredita no diálogo, na diversidade e na coexistência.


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